23/fev 0h
10.4.5 ANEXO – Aprofundando a Justificação, a Imputação, a União com Cristo e a Ressurreição: Uma Via Média, Bíblica, entre a Nova Perspectiva sobre Paulo e a da Reforma Protestante
Nem todo conceito da justificação vindo da reforma protestante
(conceito usado ao longo de todo esse livro, mas não alterado conforme essa
seção) é completo, e nem todo conceito da Nova Perspectiva sobre Paulo é
correto (por exemplo, trocar o entendimento da expressão bíblica “justificados
pela fé em Cristo” por “justificados pela fidelidade de Cristo”) não é cem por cento correto. Fazendo uma via média, ainda que com raciocínios circulares, compreendendo melhor e
aprofundando, temos que:
Fonte da síntese abaixo: Seminário Teológico Jonathan Edwards. Masterclass – “Abordagens sobre a doutrina paulina da justificação na dogmática do século XXI” – Prof. Guilherme Nunes, Mestrado em Teologia Sistemática, turma III, módulo cinco. Janeiro de 2026. Para as citações bíblicas eu, Roberto, variei com várias versões bíblicas.
“Acerca do legalismo judaico na época apostólica aparentemente combatido pelo apóstolo Paulo, e por Tiago e Pedro na assembleia de Atos 15, deve-se dizer que o judaísmo era variado no tempo de Cristo, não era único. Nem todo judaísmo era legalista [como os fariseus pelas palavras de Jesus em Mateus 21-23], pois havia linhas e grupos judaicos que se apoiavam na graça e misericórdia, como o judaísmo messiânico (que era exclusivista), e outros que se apoiavam na obediência à Torá (lei de Deus) para livramento do juízo final - estes, como Paulo combatia, eram grupos legalistas.
Existia a necessidade por alguns de cumprimento da circuncisão, guarda do sábado etc. - prática da lei para ser salvo no último dia. E existia o etnocentrismo (nomismo etnocêntrico) - o "lugar" de salvação que eles defendiam era que deviam aderir à lei para ter uma identidade judaica. Apenas sendo judeu a pessoa seria salva, como um prosélito [combatido por Jesus em Mateus 23, colchetes meus]. Para alguns a salvação era em tornar-se judeu, e para isso a pessoa devia cumprir a lei para ser salva - e é isso que Paulo combatia. Parece que os fariseus liam "os gentios" em Isaías, e entendiam "prosélitos" dentro do judaísmo.
A natureza efetiva da justificação é a santificação, de modo que uma está ligada a outra.
A natureza da justificação é ampla, não só vertical e individual: Deus cria um novo povo, com um novo status, dentro de uma nova aliança, preparando para uma nova era: para o momento escatológico / eternidade.
O problema da nova perspectiva em Paulo é reduzir os termos em grego de justiça e retidão em mera categoria pactual.
O ato de justificação no presente, como dito, não é tornar-se justo [sem pecado na Terra], mas ser declarado justo diante de Deus.
Paulo, acerca de justificação, fala de justificação tanto no presente como no futuro. Paulo diz, combatendo alguns grupos judaicos, que você não tem que ser prosélito judeu para se tornar ou ser garantido justo no último dia, porque Jesus te justifica no presente, ou seja, te coloca dentro de um novo povo, te dá um status de justo no presente, e sua ressurreição garante que no último dia você seja declarado justo, obviamente pelo sacrifício de Jesus, por sua morte e ressurreição, e por conta da declaração presente já de que você está no status de justo diante de Deus, e que você faz parte do povo de Deus.
~~
União com Cristo: Efésios 2:4-10 (“Em Cristo”, várias vezes)
A parte da união com Cristo é um centro importantíssimo na teologia paulina. Em Cristo, expressão várias vezes escrita na Escritura, significa união com Cristo como fonte de vida em toda a obra da salvação: se a justiça de Cristo é dada a mim porque estou ligado a Cristo. "Não sou eu quem vivo, mas Cristo que vive em mim." Como estou em Cristo, tudo o que Cristo é, faz, eu sou.
Além disso, não dá para separar a justificação e santificação: Romanos 6 até o v. 14: a natureza efetiva da justificação é uma nova vida, e que ao te colocar diante de Deus, você vive como alguém que está diante de Deus. Puxando as heranças de Calvino vemos que ele juntava as duas coisas, afirmava claramente que justificação não é santificação, mas ambas são amparadas no fato de que nós temos participação em Cristo, nós devemos afirmar de que apesar de que nós somos justificados, isso não significa que nós devemos buscar menos santificação do que valorizamos justificação. As duas coisas estão juntas, porque estamos em Cristo, e temos participação direta com Cristo.
A natureza efetiva da justificação é me colocar diante de Deus para ser santo, assim não se gera divisão estranha entre justificação e santificação.
Justificação é pela fé, e a outra moeda da fé é o arrependimento.
Já a doutrina da imputação é a implicação necessária e lógica da doutrina da união com Cristo. É teológica, mas não exegética. Existe uma solidariedade corporativa entre o crente e o Messias de forma que aquilo que aconteceu e aquilo que pertence aos Messias pertence aos crentes por conta de que os crentes estão em Cristo. Então isso gera uma implicação direta que a doutrina da imputação é correta e teológica.
O ato de imputação vem junto com a misericórdia de Deus. Salmo 103.8-10. Não é como se alguém dissesse: “Eu preciso da imputação porque senão Deus me aniquila, a ira de Deus vem, etc.” – pois o ato de imputação vem junto com a misericórdia de Deus. Há uma relação da imputação [comunitária] com a relação judeu - gentio na nova comunidade, novo homem. A justiça de Cristo nos coloca também como povo de Deus, aí entendemos que a imputação implica na minha relação (ou na linguagem Paulina na relação de judeus e gentios) na nova comunidade, formando um novo homem.
2 Coríntios 5:21 NAA [Nova Almeida Atualizada]: Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.
Imputação não só é algo dado a mim. É dado a mim porque estou em Cristo. Imputação não pode ser retirada das relações com as outras áreas / relações diretas, por exemplo, diminuindo a obediência a Deus. A obediência é uma resposta de gratidão à graça de Deus.
Portanto a morte de Cristo não é apenas uma questão de imputação do pecado, mas também uma questão de participação direta, nossa, em união com ele. Essa participação também é real e efetiva na ressurreição de Cristo: "se alguém está em Cristo, é nova criatura."
Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. (II Coríntios 5:14 acf)
O ato de estar em Cristo rege as questões de imputação.
2Co 5.21 (Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus) diz que nós somos tornados pessoas justas: isso fala da união com Cristo. A justificação não pode ser vista como mera questão forense, mas com união com outras frentes.
Somos feitos justiça de Deus: não tínhamos isso mas nos foi dado, presenteado, portanto existe uma ideia de imputação aqui. A justiça que foi dada foi dada em união com Cristo.
Romanos 4, Abraão, creditado em justiça ou imputado? Creditar é sendo contada para mim, e imputar é sendo transferida para mim.
O ato de Abraão ter crido no que Deus falou, esse ato de crer/confiança, fez Abraão ser contado como justo, e não com algum tipo de transferência.
A justificação é obra do Espírito que incorpora os crentes a Cristo.
Romanos 4:3, 5 NVI [3] Que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído como justiça.” [5] No entanto, ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé é atribuída como justiça.
A fé é que está sendo creditada. A fé [embora seja meio cf. Ef 2.8-10, não fim em si mesma] faz com que eu seja justo, somos redefinidos como justos, mas alguns textos não falam propriamente de transferência de justiça explicitamente na Bíblia.
A união com Cristo é a doutrina exegética da Palavra e imputação é a implicação lógica-teológica (justiça de Cristo transferida a mim e meu pecado transferido a Cristo).
~~
Ligação da justificação com a ressurreição de Jesus
Paulo, quando o assunto é o evangelho, não separa cruz e ressurreição, como a teologia muitas vezes separa: em Romanos 1:3, Romanos 10:9, 1Coríntios 15.3-8, 2Timóteo 2:8, e também em Romanos 4:25, Paulo sempre une a ressurreição com a mensagem do evangelho.
"Ressuscitou para nossa justificação": Rm 4:25.
Existe uma relação implícita de que existe uma relação direta e indissolúvel entre morte/cruz e ressurreição.
1Coríntios 15:17 ACF E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
Para que haja perdão de fato dos pecados dos salvos, é necessário que Cristo tenha ressuscitado. Sem a ressurreição, ainda estamos mortos nos pecados (1Co 15.17). A morte de Jesus está ligada com a ressurreição. Na ressurreição, há um maior veredito do que a morte: vocês estão perdoados! É uma declaração viva. Só com a morte a declaração de perdão ainda não foi feita. Uma coisa é pagar dívida (morte), outra coisa é colocar dinheiro na sua conta, é alguém que agora vive para Deus, vive como perdoado para Deus (ressurreição).
Romanos 1:3: há uma declaração de ser filho de Deus. Não só de divindade, mas de função baseado na descendência davídica, como Rei pela ressurreição. Na ressurreição, Cristo não ressuscitou como cabeça individual, mas cabeça de um povo. Na ressurreição, o Rei dá vida ao seu povo, faz deles família!
Romanos 4:24-25 (Ressuscitou para nossa justificação):
24 Mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor; 25 O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:24-25 acf)
"Para" nossa justificação, e não "por causa" da nossa justificação:
Justificação é um processo temporal na história do crente (fator presente e futuro), e o que me garante essa justificação no último dia é a ressurreição, e que a obra de ressurreição de Cristo é a Obra necessária pela qual seremos julgados no futuro. Romanos 4.25, enfatizando o fator futuro, de que lá no futuro eu serei justificado por conta de que Jesus ressuscitou. A ideia é de que a ressurreição também justifica no presente, mas sua ênfase de justificação é que naquele grande Dia nós seremos justificados porque nós fomos justificados no presente, mas o que garante nosso veredito final lá também é justamente que Cristo ressuscitou.
9 Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. 10 Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 11 E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação. (Romanos 5:9-11 acf)
A reconciliação também garante que serei salvo pela sua vida porque Ele ressuscitou. Na morte (e, claro, ressurreição, mas enfatizando a morte) eu fui reconciliado e ela me garante o perdão no presente, mas no futuro (enfatizando a ressurreição) serei salvo da sua ira, pela sua vida – pois vida no final de Rm 5.10 seria a ressurreição.
Romanos 5.16ss: Adão e Cristo: Há um ato da ressurreição (Paulo usa a expressão: "na sua vida", que quer dizer estado pós-ressurreição, reinando em vida). O julgamento, como diz N.T. Wright também, seria um veredito já (não um filme passando, um "telão"), não é um ponto de ver se você pode passar, e esse veredito estaria definido na ressurreição dos crentes. É por isso que Paulo fala: se Ele não ressuscitou, vocês não vão ressuscitar. E, se Jesus não ressuscitou, vocês permanecem mortos nos seus pecados.
A ressurreição garante que foi dada vida para vocês, e também garante que vocês serão ressuscitados e salvos da ira naquele dia onde obras serão requeridas, por causa da obra de Jesus na cruz e na grande obra de ressurreição, a obra de justiça, que é ressurgir dos mortos como cabeça de um povo.
E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (I Timóteo 3:16 acf)
O termo justificação (Cristo foi justificado no Espírito) aqui cabe bem como 'vindicação', que tem ênfase no ato que torna alguém vindicado, de fato recebido, de fato colocado no seu lugar apropriado de honra e glória. Jesus na ressurreição é colocado no seu lugar apropriado de glória, vindicado. O que significa que nossa união com ele nos coloca lá também. Então sem o movimento de ressurreição não teríamos vida, não estaríamos lá também: pois todo o processo de encarnação, morte e ressurreição são ancorados no fato de que nós estamos em Cristo, e esse ato de estar em união com Cristo nos faz perceber que porque Jesus reina, porque Jesus está vivo, nós também estamos vivos, e também reinaremos, e também seremos salvos da ira vindoura.
O processo de justificação é garantido pela morte (ênfase no presente) e ressurreição (ênfase no futuro). O nosso andar com Deus e o final no último Dia também são garantidos pois Jesus fez a obra necessária para que eu passasse no juízo final. No juízo final, quando ressuscitarmos e/ou sermos transformados com corpos glorificados, esse já será o ato de julgamento de Deus, só que o que nos garante que seremos transformados e/ou ressuscitados, passar por esse julgamento, é justamente que Jesus ao ressuscitar já nos representou no julgamento final de forma antecipada por meio dessa ressurreição. O ato dele ir à frente, como representando todos nós, e seu ato de justiça ao ressuscitar, sua pureza, quem ele é, já garante que na nossa ressurreição já seremos ressuscitados para entrar no reino eterno do Senhor por causa da sua ressurreição.
Esse é o olhar escatológico da ressurreição, e a relação da justificação com a ressurreição."
Seminário Teológico Jonathan Edwards (2026).
Nenhum comentário:
Postar um comentário