sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Correção (seção inteira) contra imprecisões: 3.4.1 A Trindade: Esclarecimentos Adicionais

Graça e paz! Essa seção me deu trabalho rsrs (são palavras e notações complexas e sutis). Mesmo link.

https://www.mediafire.com/file/ycy0mjv0e4s0lif/20-fev-26_Teologia_Sistem%25C3%25A1tica_Interdenominacional.pdf/file

3.4.1 A Trindade: Esclarecimentos Adicionais

De acordo com a Confissão de Ausburgo (1530),

“Em primeiro lugar, ensina-se e mantém-se, unanimemente, de acordo com o decreto do Concílio de Nicéia, que há uma só essência divina, que é chamada Deus e verdadeiramente é Deus. E, todavia, há três pessoas nesta única essência divina, igualmente poderosas, igualmente eternas, Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, todas três uma única essência divina, eterna, indivisa, infinita, de incomensurável poder, sabedoria e bondade, um só criador e conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E com a palavra pessoa se entende não uma parte, não uma propriedade em outro, mas aquilo que subsiste por si mesmo, conforme os Pais usaram esse termo nessa questão.”

Diferenciamos o Pai ao Filho, pois o Pai gerou o Filho, e o Filho é gerado pelo Pai. O Pai é quem gera, e assim Ele se autodenominou através das Palavras do Filho na Escritura como o Pai, e o Filho é autodenominado Filho de Deus, ou Deus Filho, porque é fruto da geração do Pai, gerado pelo Pai (Hebreus 1:5 Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho?). Essa é a diferenciação da primeira com a segunda pessoa da Trindade. O Pai não foi gerado, nem procedente. Nenhuma Pessoa divina foi criada, nem existiu tempo algum em que uma Pessoa existia e outra Pessoa da Trindade não.

Acerca do Espírito Santo, a Escritura afirma que o Espírito é Procedente do Pai, e que Cristo, da parte do Pai, é quem envia o Espírito (João 15.26 Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim), também que o Pai enviará em nome do Filho (João 14.26 Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito). O Espírito é chamado Espírito de Deus (do Pai), e Espírito de Cristo (do Filho) em Romanos 8.9 (Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele).

Veja essa citação, será usada para outros raciocínios abaixo:

“Na unidade da Divindade há três pessoas de uma mesma substância, poder e eternidade: Deus o Pai, Deus o Filho e Deus o Espírito Santo. O Pai não é de ninguém: não é gerado, nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é eternamente procedente do Pai e do Filho.” Confissão de Fé de Westminster, 1643-1649.

Devemos meditar ainda: O Filho/Logos/Verbo/Palavra (Jo 1.1) existia ou era uma pessoa, inclusive divina, antes de ser gerado na eternidade, assim como o Espírito, Ele era uma pessoa divina antes de ser procedente, ou apenas o Pai?

Segundo os autores do livro Filosofia e Cosmovisão Cristã, de J.P. Moreland e William Lane Craig (2005), Tertuliano, um pai da igreja, acreditava incorretamente que antes de ser gerado e procedente, respectivamente, o Filho e o Espírito não eram pessoas distintas do Pai:

O Pai existe eternamente com seu Logos imanente; na criação, antes do começo de todas as coisas, o Filho procede do Pai e, assim, se torna seu primeiro Filho gerado, por meio de quem o mundo é criado {Contra Práxeas - CP, 19). Desse modo, o Logos se torna Filho de Deus somente ao proceder do Pai como ser substantivo {CP, 7). Parece que Tertuliano estaria considerando o Filho e o Espírito pessoas distintas somente depois de sua processão do Pai {CP, 7), mas está claro que ele insiste em sua distinção pessoal a partir pelo menos deste ponto.

Apesar de Tertuliano ter contribuído em muito para a teologia na sua época, essa parte está incorreta, pois o Filho e o Espírito sempre existiram como pessoas divinas distintas da pessoa do Pai, sendo eternos. Era uma época em que a igreja não havia desenvolvido e descoberto os 4 primeiros credos dos concílios pela Escritura.

Por que a igreja cristã ortodoxa não creu nisso, que o Filho e o Espírito fossem pessoas distintas somente depois de sua “processão” do Pai na eternidade? A pergunta é respondida pelo pai da Igreja Atanásio, anos mais tarde, contra a heresia do arianismo. A heresia defendida por Ário (daí vem arianismo) está citada no parágrafo abaixo:

“Embora outros teólogos alexandrinos como Orígenes — em contraste com Tertuliano — argumentassem que a geração do Logos do Pai não teve início, mas é desde a eternidade, a razão de a maioria dos teólogos considerar a doutrina de Ário inaceitável não era, como Ário imaginava, porque ele afirmava que “o Filho teve um início, mas Deus não teve início” {Carta a Eusébio de Nicomédia 4,5). Em vez disso, questionava-se que Ário negava até mesmo que o Logos preexistia imanentemente em Deus antes de ser gerado, ou que não era, em qualquer sentido, da substância do Pai, de modo que seu início não foi de fato um início, mas uma criação ex nihilo e que, portanto, o Filho era uma criatura. Como protestou mais tarde Atanásio, bispo de Alexandria, no conceito de Ário, Deus sem o Filho carecia de seu Verbo e sabedoria, o que é blasfêmia {Discurso contra os arianos 1.6.17) [...].” Moreland e Craig (2005).

Portanto, de acordo com esses parágrafos (cujo raciocínio será aperfeiçoado até o final dessa seção), o Filho, em sua pessoa, é eterno, e, mesmo tendo sido gerado no pai desde a eternidade, já preexistia em Deus Pai “antes” de ser gerado (logo veremos se a expressão “antes” satisfatória para a eternidade). Por quê? Esclarece Atanásio: Deus sem o Filho carecia de seu Verbo e sabedoria, o que é blasfêmia.

Esticando esse raciocínio, posso dizer que o Espírito, em sua pessoa, que também é eterno, mesmo tendo sido procedente do Pai e do Filho desde a eternidade, já preexistia em Deus antes de ser procedente. Por quê? Porque Deus sem o Espírito não é Espírito (ou melhor, Deus é eternamente Espírito – então o Espírito é eterno). E Deus é Espírito, e sempre foi. "Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. João 4:24." Nunca houve um tempo, momento ou condição em que Deus não fosse Espírito. Alguém que não conhece teologia pode dizer que Jesus não era espírito. Na verdade, sim, a humanidade de Jesus se consistia também de carne, mas Deus (essência divina) é Espírito!

Para melhorar e aperfeiçoar o raciocínio dos últimos parágrafos, começamos falando que, na eternidade, não existe a noção de “antes de ser gerado”, ou “antes de ser procedente”. Na eternidade, na qual está o Deus eterno, não há antes e depois, mas um presente absoluto e completo.

Portanto, acerta quem confia na Confissão de Fé de Westminster, que diz que o Filho é eternamente gerado do Pai, e o Espírito eternamente procedente também! É algo eterno, contínuo, sem início ou fim (se é eternamente gerado e procedente, permanece assim, “continuamente” – melhor dizendo, “sem sucessão”). Armínio (Obras de Armínio, vol. 1, pág. 423, 2015), concordando com isso, diz que:

Dizemos que [o Pai] gerou desde toda a eternidade, porque Ele não foi o Deus de Jesus Cristo, antes de ser seu Pai, nem foi simplesmente Deus antes de ser seu Pai. Porque, assim como não podemos imaginar uma mente destituída de razão, também dizemos que é ímpio formar em nossa mente uma concepção de um Deus sem a sua palavra (Jo 1.1,2). Além disso, segundo os sentimentos da antiguidade sagrada e da Igreja universal, visto que esta geração é uma operação interna [...], ela é igualmente desde toda a eternidade [contínua]. Porque todas as operações são eternas, a menos que desejemos sustentar que Deus é passível de mudar.

Então? Então, segundo Armínio, “o Pai é a fonte e a origem de toda a Divindade, e o princípio e a causa do próprio Filho, como sugere a palavra “Pai” (Jo 5.26,27). [...]. O Pai é chamado de “não gerado” [...], e é também por esse motivo que o nome de Deus com frequência é atribuído nas Escrituras, peculiarmente e por meio de eminência, ao Pai.” Obras de Armínio (2015).

Como diz o credo niceno-constantinopolitano, “o Filho foi gerado do Pai, luz de luz, Deus de Deus...” Isso implica que Deus Pai comunica (em linguagem grosseira, “comunica” significa “transmite”) a divindade ao Filho (e, claro, também ao Espírito!).

Concluímos, finalmente, que Deus Pai é “não gerado” (sendo assim a primeira pessoa da trindade), pois é, segundo Armínio, a fonte e origem da divindade do Filho e do Espírito. Na Bíblia, muitas vezes, quando se diz ‘Deus’, geralmente está falando de Deus ‘Pai’. O Pai gera eternamente (isto é, na eternidade, fora do tempo criado) o Filho e, nessa geração eterna, comunica ao Filho, sem sucessão, atemporalmente, sua essência divina (isto é, a mesma natureza ou divindade), de modo que, assim como a Confissão de Westminster diz que o Filho é eternamente gerado pelo Pai, o Filho sempre foi Deus, uma pessoa divina. Deus é imutável e isso sempre foi assim e nunca mudou, o que quero dizer que o Filho sempre foi e sempre será gerado eternamente do Pai, que é a fonte imutável dessa essência divina. Nunca houve época em que o Filho não fosse uma pessoa divina, ou que não tivesse sido gerado.

Concluímos, também, que uma vez que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho”, Ele é, em sua ordem, a terceira pessoa da trindade. O verso abaixo, referido, Jo 15.26 (Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim) diz que o Espírito, na verdade, é enviado por Cristo, mas procede apenas do Pai. É a Bíblia, leia. Não procede do Filho segundo a literalidade das Palavras da Bíblia, mas é enviado pelo Filho e procede (vem) do Pai. O que quer dizer? Que é Cristo quem O envia (e de fato enviou a nós quando ascendeu ao Pai), mas que o Espírito recebe Sua Divindade do Pai “continuamente” (isto é, sendo eternamente procedente de modo atemporal e sem sucessão), que é a fonte da Divindade, assim como o Filho também recebe Sua Divindade do Pai “continuamente” (isto é, significando eternamente gerado de modo atemporal e sem sucessão).

Para um maior esclarecimento, o Espírito Santo procede apenas do Pai, ou do Pai e do Filho? Resposta: ambos estão corretos, dependendo do significado atribuído ao verbo proceder:

No quesito de receber sua Divindade, conforme a Escritura, o Espírito é procedente apenas do Pai (o Pai é a fonte da Divindade, ou seja, a causa – o princípio – do Filho e do Espírito). No quesito mais abrangente do termo "proceder", conforme a comunhão da mesma essência (ou substância) entre as três Pessoas da Trindade, em que a Bíblia também é extremamente clara, o Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho, procedente tanto do Pai como do Filho ("pois o Espírito é dado, revelado, manifesto, advém e é conhecido pelo Filho" conforme Gregório Palamas, Tomo (1351 apud Migne, J. P., Patrologiae cursus completus (Apology 142.262C-D), series graeca, Paris (1857-1866) apud Papadakis, Aristeides (1983, Crisis in Byzantium: The Filioque Controversy in the Patriarchate of Gregory II of Cyprus (1283-1289), New York: Fordham University Press, pág. 91))). Amém.

Portanto, Deus Pai é eternamente a fonte da divindade, não gerado; Deus Filho é eternamente gerado do Pai; e Deus Espírito Santo é eternamente procedente do Pai, e eternamente enviado do Filho (ou, em formulações teológicas distintas, eternamente procedente do Pai e do Filho). Por que coloquei tantas vezes eternamente? Porque, dando uma última ênfase, isso nunca foi diferente, pois Deus é imutável – não muda, nunca mudou! Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente! (Hb 13.8).

Amém.

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