Teologia Sistemática Interdenominacional
Atualizações de 21/jan/26 9h30 (Clube de autores por R$ 79, mediafire e academia.edu de graça - Kindle em processo de publicação da edição nova (20-21/jan/26) por R$ 3,00)
21/jan - governo da Igreja aprimorado; português aprimorado na seção sobre justificação.
21/jan 16h26: Cada membro da igreja, especialmente os líderes, deve ter liberdade para consultar e às vezes questionar os pontos das confissões e das declarações de fé que a sua denominação se sujeita para edificação mútua (para que não aconteça o que Grudem (2010) disse que ocorre com relativa frequencia: “a liderança nacional de uma denominação presbiteriana adota uma falsa doutrina e exerce grande pressão sobre as igrejas locais para se conformarem a ela”). Questionar o estatuto de fé da denominação é apenas pela Bíblia, pelo princípio “a Escritura interpreta a Escritura”, especialmente porque nenhuma declaração humana é perfeita e imutável, a Bíblia é que é a perfeita e preservada Palavra.
13.4
Segundo, Deus fez toda a humanidade livre no sentido
não-salvífico – uma criança pode escolher sem a intervenção divina entre
chocolate e doce-de-leite se isso não for algo que Deus, pela Sua
Providência, queira usar conduzindo isso para uma finalidade maior;
Apêndice D
Dessa vez o nosso ajudante ChatGPT irá nos auxiliar. Embora a
inteligência artificial não seja isenta de erros, verifiquei as afirmações
abaixo com cautela. A inteligência artificial foi utilizada somente neste
apêndice, ou seja, não foi utilizada em nenhuma outra parte deste livro.
10.4.5 ANEXO – Aprofundando a
Justificação, a Imputação e a Ressurreição: Uma Via Média, Bíblica, entre a
Nova Perspectiva sobre Paulo e a da Reforma Protestante
[revisada a gramática em 21/jan]
Nem todo conceito da justificação vindo da
reforma protestante (conceito usado ao longo de todo esse livro, mas não
alterado conforme essa seção) é completo, e nem todo conceito
da Nova Perspectiva sobre Paulo é correto (por
exemplo, trocar o entendimento da expressão bíblica “justificados pela fé em
Cristo” é trocado por “justificados pela fidelidade de Cristo”). Fazendo uma
via média, compreendendo melhor e aprofundando, temos que:
Fonte da síntese abaixo: Seminário Teológico Jonathan
Edwards. Masterclass – “Abordagens sobre a doutrina paulina da
justificação na dogmática do século XXI” – Aula do prof. Guilherme
Nunes, Mestrado em Teologia Sistemática, turma III, módulo cinco. Janeiro de
2026.
10.4.5 ANEXO – Aprofundando a Justificação, a Imputação e a Ressurreição: Uma Via Média, Bíblica, entre a Nova Perspectiva sobre Paulo e a da Reforma Protestante
Nem todo conceito da justificação vindo da reforma protestante (conceito usado ao longo de todo esse livro, mas não alterado conforme essa seção) é completo, e nem todo conceito da Nova Perspectiva sobre Paulo é correto (por exemplo, trocar o entendimento da expressão bíblica “justificados pela fé em Cristo” por “justificados pela fidelidade de Cristo”). Fazendo uma via média, compreendendo melhor e aprofundando, temos que:
Fonte da síntese abaixo: Seminário Teológico Jonathan Edwards. Masterclass – “Abordagens sobre a doutrina paulina da justificação na dogmática do século XXI” – Aula do prof. Guilherme Nunes, Mestrado em Teologia Sistemática, turma III, módulo cinco. Janeiro de 2026. Para as citações bíblicas eu, Roberto, variei com várias versões bíblicas.
“Acerca do legalismo judaico na época apostólica aparentemente combatido pelo apóstolo Paulo, e por Tiago e Pedro na assembleia de Atos 15, deve-se dizer que o judaísmo era variado no tempo de Cristo, não era único. Nem todo judaísmo era legalista [como os fariseus pelas palavras de Jesus em Mateus 21-23], pois havia linhas e grupos judaicos que se apoiavam na graça e misericórdia, como o judaísmo messiânico (que era exclusivista), e outros que se apoiavam na obediência à Torá (lei de Deus) para livramento do juízo final - estes, como Paulo combatia, eram grupos legalistas.
Existia a necessidade por alguns de cumprimento da circuncisão, guarda do sábado etc. - prática da lei para ser salvo no último dia. E existia o etnocentrismo (nomismo etnocêntrico) - o "lugar" de salvação que eles defendiam era que deviam aderir à lei para ter uma identidade judaica. Apenas sendo judeu a pessoa seria salva, como um prosélito [combatido por Jesus em Mateus 23, colchetes meus]. Para alguns a salvação era em tornar-se judeu, e para isso a pessoa devia cumprir a lei para ser salva - e é isso que Paulo combatia. Parece que os fariseus liam "os gentios" em Isaías, e entendiam "prosélitos" dentro do judaísmo.
A natureza efetiva da justificação é a santificação, de modo que uma está ligada a outra.
A natureza da justificação é ampla, não só vertical e individual: Deus cria um novo povo, com um novo status, dentro de uma nova aliança, preparando para uma nova era: para o momento escatológico / eternidade.
O problema da nova perspectiva em Paulo é reduzir os termos em grego de justiça e retidão em mera categoria pactual.
O ato de justificação no presente, como dito, não é tornar-se justo [sem pecado na Terra], mas ser declarado justo diante de Deus.
Paulo, acerca de justificação, fala de justificação tanto no presente como no futuro. Paulo diz, combatendo alguns grupos judaicos, que você não tem que ser prosélito judeu para se tornar ou ser garantido justo no último dia, porque Jesus te justifica no presente, ou seja, te coloca dentro de um novo povo, te dá um status de justo no presente, e sua ressurreição garante que no último dia você seja declarado justo, obviamente pelo sacrifício de Jesus, por sua morte e ressurreição, e por conta da declaração presente já de que você está no status de justo diante de Deus, e que você faz parte do povo de Deus.
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União com Cristo: Efésios 2:4-10
Em Cristo, expressão várias vezes escrita na Escritura, significa união com Cristo como fonte de vida em toda a obra da salvação: se a justiça de Cristo é dada a mim porque estou ligado a Cristo. "Não sou eu quem vivo, mas Cristo que vive em mim." Como estou em Cristo, tudo o que Cristo é, faz, eu sou.
Não dá para separar a justificação e santificação: Romanos 6 até o v. 14: a natureza efetiva da justificação é uma nova vida, e que ao te colocar diante de Deus, você vive como alguém que está diante de Deus.
Justificação é pela fé, e ligado à fé está o arrependimento.
O ato de imputação vem junto com a misericórdia de Deus. Salmo 103.8-10. Não é como se Deus não imputasse a justiça de Cristo em mim eu estaria perdido e na ira, pois a imputação vem junto com a misericórdia. A justiça de Cristo nos coloca também como povo de Deus, aí entendemos que a imputação implica na minha relação (ou na linguagem Paulina na relação de judeus e gentios) na nova comunidade, formando um novo homem.
2Coríntios 5:21 NAA [Nova Almeida Atualizada]: Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.
A imputação não é simplesmente que algo foi dado a mim, mas eu fui colocado nele, em termos de justiça: essa relação de união com Cristo, segundo muitos proponentes, como Carson, é que rege a questão da imputação.
Portanto a morte de Cristo não é apenas uma questão de imputação do pecado, mas também uma questão de participação direta, nossa, em união com ele. Essa participação também é real e efetiva na ressurreição de Cristo: "se alguém está em Cristo, é nova criatura."
Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. (II Coríntios 5:14 acf)
O ato de estar em Cristo rege as questões de imputação.
2Co 5.21 (Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus) diz que nós somos tornados pessoas justas: isso fala da união com Cristo. A justificação não pode ser vista como mera questão forense, mas com união com outras frentes.
Somos feitos justiça de Deus: não tínhamos isso mas nos foi dado, presenteado, portanto existe uma ideia de imputação aqui. A justiça que foi dada foi dada em união com Cristo.
Romanos 4, Abraão, creditado em justiça ou imputado? Creditar é sendo contada para mim, e imputar é sendo transferida para mim.
O ato de Abraão ter crido no que Deus falou, esse ato de crer/confiança, fez Abraão ser contado como justo, e não com algum tipo de transferência.
A justificação é obra do Espírito que incorpora os crentes a Cristo.
Romanos 4:3, 5 NVI [3] Que diz a Escritura? “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído como justiça.” [5] No entanto, ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé é atribuída como justiça.
A fé é que está sendo creditada. A fé faz com que eu seja justo, somos redefinidos como justos, mas alguns textos não falam propriamente de transferência de justiça explicitamente na Bíblia.
A união com Cristo é a doutrina exegética da Palavra e imputação é a implicação lógica-teológica (justiça de Cristo transferida a mim e meu pecado transferido a Cristo).
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Ligação da justificação com a ressurreição de Jesus.
Paulo, quando o assunto é o evangelho, não separa cruz e ressurreição, como a teologia muitas vezes separa: em Romanos 1:3, Romanos 10:9, 1Coríntios 15.3-8, 2Timóteo 2:8, e também em Romanos 4:25, Paulo sempre une a ressurreição com a mensagem do evangelho.
"Ressuscitou para nossa justificação": Rm 4:25.
Existe uma relação implícita de que existe uma relação direta e indissolúvel entre morte/cruz e ressurreição.
1Coríntios 15:17 ACF E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
Para que haja perdão de fato dos pecados dos salvos, é necessário que Cristo tenha ressuscitado. Sem a ressurreição, ainda estamos mortos nos pecados (1Co 15.17). A morte de Jesus está ligada com a ressurreição. Na ressurreição, há um maior veredito do que a morte: vocês estão perdoados! É uma declaração viva. Só com a morte a declaração de perdão ainda não foi feita. Uma coisa é pagar dívida (morte), outra coisa é colocar dinheiro na sua conta, é alguém que agora vive para Deus, vive como perdoado para Deus (ressurreição).
Romanos 1:3: há uma declaração de ser filho de Deus. Não só de divindade, mas de função baseado na descendência davídica, como Rei pela ressurreição. Na ressurreição, Cristo não ressuscitou como cabeça individual, mas cabeça de um povo. Na ressurreição, o Rei dá vida ao seu povo, faz deles família!
Romanos 4:24-25 (Ressuscitou para nossa justificação):
24 Mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dentre os mortos ressuscitou a Jesus nosso Senhor; 25 O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação (Romanos 4:24-25 acf)
"Para" nossa justificação, e não "por causa" da nossa justificação:
Justificação é um processo temporal na história do crente (fator presente e futuro), e o que me garante essa justificação no último dia é a ressurreição, e que a obra de ressurreição de Cristo é a Obra necessária pela qual seremos julgados no futuro. Romanos 4.25, enfatizando o fator futuro, de que lá no futuro eu serei justificado por conta de que Jesus ressuscitou. A ideia é de que a ressurreição também justifica no presente, mas sua ênfase de justificação é que naquele grande Dia nós seremos justificados porque nós fomos justificados no presente, mas o que garante nosso veredito final lá também é justamente que Cristo ressuscitou.
9 Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. 10 Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida. 11 E não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a reconciliação. (Romanos 5:9-11 acf)
A reconciliação também garante que serei salvo pela sua vida porque Ele ressuscitou. Na morte (e, claro, ressurreição, mas enfatizando a morte) eu fui reconciliado e ela me garante o perdão no presente, mas no futuro (enfatizando a ressurreição) serei salvo da sua ira, pela sua vida – pois vida no final de Rm 5.10 seria a ressurreição.
Romanos 5.16ss: Adão e Cristo: Há um ato da ressurreição (Paulo usa a expressão: "na sua vida", que quer dizer estado pós-ressurreição, reinando em vida). O julgamento, como diz N.T. Wright também, seria um veredito já (não um filme passando, um "telão"), não é um ponto de ver se você pode passar, e esse veredito estaria definido na ressurreição dos crentes. É por isso que Paulo fala: se Ele não ressuscitou, vocês não vão ressuscitar. E, se Jesus não ressuscitou, vocês permanecem mortos nos seus pecados.
A ressurreição garante que foi dada vida para vocês, e também garante que vocês serão ressuscitados e salvos da ira naquele dia onde obras serão requeridas, por causa da obra de Jesus na cruz e na grande obra de ressurreição, a obra de justiça, que é ressurgir dos mortos como cabeça de um povo.
E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (I Timóteo 3:16 acf)
O termo justificação (Cristo foi justificado no Espírito) aqui cabe bem como 'vindicação', que tem ênfase no ato que torna alguém vindicado, de fato recebido, de fato colocado no seu lugar apropriado de honra e glória. Jesus na ressurreição é colocado no seu lugar apropriado de glória, vindicado. O que significa que nossa união com ele nos coloca lá também. Então sem o movimento de ressurreição não teríamos vida, não estaríamos lá também: pois todo o processo de encarnação, morte e ressurreição são ancorados no fato de que nós estamos em Cristo, e esse ato de estar em união com Cristo nos faz perceber que porque Jesus reina, porque Jesus está vivo, nós também estamos vivos, e também reinaremos, e também seremos salvos da ira vindoura.
O processo de justificação é garantido pela morte (ênfase no presente) e ressurreição (ênfase no futuro). O nosso andar com Deus e o final no último Dia também são garantidos pois Jesus fez a obra necessária para que eu passasse no juízo final. No juízo final, quando ressuscitarmos e/ou sermos transformados com corpos glorificados, esse já será o ato de julgamento de Deus, só que o que nos garante que seremos transformados e/ou ressuscitados, passar por esse julgamento, é justamente que Jesus ao ressuscitar já nos representou no julgamento final de forma antecipada por meio dessa ressurreição. O ato dele ir à frente, como representando todos nós, e seu ato de justiça ao ressuscitar, sua pureza, quem ele é, já garante que na nossa ressurreição já seremos ressuscitados para entrar no reino eterno do Senhor por causa da sua ressurreição.
Esse é o olhar escatológico da ressurreição, e a relação da justificação com a ressurreição."
Seminário Teológico Jonathan Edwards (2026).
4.2 Os Três Ofícios de Cristo
De acordo com Pimentel, Vinícius M. Os Três Ofícios
de Cristo. 3 de setembro de 2014. Disponível em:
<https://voltemosaoevangelho.com/blog/2014/09/os-tres-oficios-de-cristo/>.
Acesso em: Jan. 2026:
“O tríplice ofício de Cristo (“Munus triplex”), o qual ele exerceu tanto em seu estado de humilhação como no de exaltação, está figurado no Antigo Testamento nos ofícios profético, sacerdotal e real – ofícios que eram consagrados através de unção (sendo “ungido” o significado do termo grego “Cristo” e hebraico “Messias”).
Como Profeta, ele nos revela a vontade e a pessoa de Deus. Como Sacerdote, ele é nosso mediador diante de Deus, oferecendo a si mesmo, uma só vez, em sacrifício para satisfazer a justiça divina e nos reconciliar com o Pai e vivendo sempre para interceder por aqueles que se achegam a Deus. Como Rei, ele governa como o vice regente do Pai sobre o mundo, protege o seu povo e conquista sobre seus inimigos.
Ressalta-se que, apesar de vermos tais sombras no Antigo Testamento, não devemos supor que Deus se aproveitou “a posteriori” desses ofícios para ilustrar a obra messiânica, mas que foram decretados antes da fundação do mundo para nos revelar o Cristo. Primeiro vem a realidade eterna do Filho, depois os ofícios terrenos. Ele é o Logos, o Cordeiro que foi morto e o braço direito do Pai antes da fundação do mundo.
Ademais, encontramos esse tríplice ofício em todas as Escrituras:
Em Gênesis, Cristo é como:
· Profeta: a Palavra criadora do Pai (1.3; cf. Jo 1.1-4; Cl 1.16) e o Anjo do Senhor que traz a revelação da vontade e da aliança de Deus (16.7; 31.11-13; cf. 2 Co 1.20)
· Sacerdote: o sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (14.17-20; cf. Hb 7.17, 22, 24-25), o descendente mediador das bênçãos para todas as famílias da terra (12.1-3, 7; 13.15; 24.7; cf. Gl 3.1-16) e o subtituto provido por Deus para ser sacrificado no lugar da descendência de Abraão (Gn 22.13-14; cf. Jo 3.17 e Hb 2.16)
· Rei: o Descendente de Judá de quem o cetro jamais se apartará (49.10; cf. Ap 5.5 e Hb 1.8) e que pisa sobre a cabeça da serpente (3.15 ; cf. Cl 2.15).
E em Apocalipse, ele é como
· Profeta: a testemunha fiel (1.5) que traz revelação, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos o que em breve há de acontecer (1.1) e que é digna de abrir os sete selos da revelação do juízo de Deus (6.1).
· Sacerdote: o Cordeiro que foi morto (5.11) e que, por meio de seu sangue, liberta (1.5) e compra para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação (5.9).
· Rei: o vitorioso Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi (5.11) e o soberano dos reis da terra (1.5), que possui, reina e governa com cetro de ferro sobre o reino do mundo (2.27; 11.15) e que julga e guerreia com justiça (19.11).
Por fim, por estarmos unidos em Cristo, o tríplice ofício de Cristo tem duas implicações. A primeira é aquilo que ele realiza por nós em cada um deles, conforme descrito acima. A segunda, e muitas vezes negligenciadas, é que somos chamados a sermos à imagem do Filho (com as devidas limitações observadas). Somos chamados como
· Profetas: a ensinarmos tudo aquilo que Deus falou através do Filho nos últimos tempos (Mt 28.18-20), proclamando a mensagem de juízo e salvação do evangelho (Mc 16.15; Rm 2.16; 2Co 2.14-17) e sendo, como igreja, coluna e firmeza da verdade (1 Tm 3.15).
· Sacerdotes: a cuidarmos um dos outros (Hb 3.13; 10.25) e intercedermos um pelos outros e pelo mundo (Ef 6.18; 1 Ts 5.17; 1Tm 2.1-4), vivendo como um reino sacerdotal (Ex 19.6; 1 Pe 2.9; Ap 5.10)
· Reis: a levarmos todo pensamento cativo à Cristo (2Co 2.15) e os povos à obediência ao Rei dos reis (Mt 28.18-20; Rm 18.15) e a vivermos como reino sacerdotal (Ex 19.6; 1 Pe 2.9; Ap 5.10), na certeza de que um dia pisaremos sobre a cabeça de Satanás (Rm 16.20), julgaremos os anjos e o mundo (1Co 6.2-3) e nos assentaremos no trono de Cristo (Ap 3.21).”
Amém.
11.7 Governo da Igreja / Governo Eclesiástico
Continuando a seção anterior, a
Igreja do Senhor, com suas diversas denominações, deve ser organizada, assim
como era a igreja na época apostólica. Os modelos de governo da igreja mais
comuns são:
1. 1. Episcopal: Um líder, como um pastor presidente,
um papa, um ‘apóstolo’ de igreja neopentecostal, muitas vezes (nem sempre) tem
a palavra final e decide tudo verticalmente, muitas vezes com hierarquia (muitas
vezes antibíblica, nem sempre) como, do mais alto para o cargo de líder mais
baixo, ‘apóstolo’ – bispo – pastor, ou papa – cardeal – arcebispo – bispo –
padre, ou pastor – presbítero – diácono – cooperador etc.; às vezes o líder
governa só, às vezes auxiliado por um grupo.
2. 2. Congregacional: Os membros, que possuem direitos
e deveres iguais, elegem o líder/pastor, e fazem assembleias regularmente para
a tomada de diversas decisões (não todas, pois o pastor também tem alguma
liberdade disso). É como uma democracia. Os membros, como são batizados para
serem membros e também sacerdotes em Cristo, participam em votações, e por isso
são mais influentes do que no modelo episcopal ou presbiteriano;
3. 3. Governo por Presbíteros: Há um corpo/conselho escolhido
formado por presbíteros e anciães, que toma as decisões importantes da igreja,
assim como Paulo levantou presbíteros no Novo Testamento por onde passava, após
fazer discípulos e ver que se tornaram experientes no evangelho. Os presbíteros
não costumam possuir mandato vitalício como muitos no modelo episcopal. O
pastor/reverendo também é um desses presbíteros, mas com a diferença que é
ministro (pregador) da Palavra de Deus. Às vezes essas igrejas são submissas a
convenções, sínodos e concílios superiores, ou podem ser independentes.
Observação sobre o método episcopal:
foi-se o tempo em que a grande maioria das pessoas, e principalmente os homens
tinham caráter (e talvez temor a Deus... e talvez saúde mental) para não serem
corrompidos por poder, fama ou status, pois hoje em dia fazem impérios com as
denominações e ganham-se milhões com ofertas dos fiéis, sendo que o pastor deve
ser chamado a viver com o suficiente, não esbanjando. Existem hoje líderes
autoritários, igrejas que se tornaram sinagogas de Satanás na mão de lobos
devoradores, e ninguém consegue tirá-los do cargo, só o juízo de Deus. A igreja
do Senhor sofre na mão deles. Muitas vezes o líder carismático (que nem sempre é
autoritário) foi colocado no cargo pelo fundador de sua denominação, ou por um
pastor influente anterior a ele, mas esse líder pode fazer nepotismo colocando
seus familiares como sucessores, muitas vezes sem eles terem chamado ou vocação
para isso.
Além disso, se um pastor planta uma
igreja, e não há pessoas experientes, pode-se fundá-la sobre o modelo episcopal
temporário (inicialmente) até que sejam levantados homens e mulheres de Deus por
anos experientes e experimentados na Palavra para compor um conselho (para um
futuro governo por presbíteros, por exemplo) e a igreja ser cada vez mais
saudável e não centrada em uma pessoa só. Se, porventura, é uma família que
funda a igreja, também deve-se ter cautela em levantar familiares a pastores
(Paulo disse a Timóteo em 1Timóteo 5.22: a ninguém imponhas precipitadamente as
mãos), pois muitos deles, embora podem ajudar em muitas áreas da igreja, podem
não ter chamado ou vocação para o ministério pastoral. Nesse caso, após o(s)
pastor(es) principais da família discipularem a igreja, é adequado que a
denominação não seja estritamente da família quando a denominação crescer, mas
se a família notar que homens e mulheres de Deus se destacam no Senhor e na
Palavra, creio que devem levantar presbíteros para que haja um conselho de
pessoas de Deus, uma mescla da família e de fora da família, e não só da sua
família, quero dizer, não só que pensam como sua família pensa. A Igreja é do
Senhor Jesus, e não de uma família.
Observação sobre o método
congregacional: Pode ser válido se os membros forem experientes e tementes a
Deus, e se houver essa cultura de votação aprovada, pois não me parece válido
se a igreja for nova ou de novos convertidos ou meninos na fé: a votação
terminaria provavelmente em desastre (não é só porque os membros são batizados
que necessariamente são salvos, tementes a Deus e tomem decisão segundo a
vontade de Deus). Os apóstolos plantavam igrejas e depois de algum tempo
levantavam presbíteros e diáconos por onde andavam.
Observação sobre o método
presbiteriano: É o mais adequado regularmente na minha opinião para que o poder
seja distribuído adequadamente e o futuro da denominação não se concentre em
decisões de uma pessoa só (lembre-se do ditado: Quer saber quem uma pessoa é?
Dê-lhe poder!), especialmente para uma igreja séria, embora a validade de cada
modelo eclesiástico e embora o futuro da denominação esteja mais relacionado ao
compromisso com a Bíblia, ao amor e à santidade da Igreja, fidelidade ao
Senhor, temor a Deus, respeito e submissão mútuos, do que simplesmente escolher
o modelo de igreja.
É aceitável que uma igreja (e
líderes) esteja submissa a uma declaração de fé bíblica e saudável eleita pelo
conselho, embora: As denominações devem estar primeiro e cem por cento sujeitas
à Bíblia, a Palavra de Deus; Secundariamente, aos Credos Primitivos (ex. Credo
Apostólico, de Nicéia, Calcedônia, Atanásio); Em terceiro lugar, e somente
assim (se não houver sido adotadas Confissões, senão essas seriam em terceiro
lugar e a declaração de fé em quarto lugar), a declaração de fé da denominação,
que é viva e mutável (assim como as confissões).
Independente do modelo de governo da
igreja adotado, enquanto a denominação for e continuar sendo cristocêntrica,
principalmente no estudo e na pregação da Palavra, enquanto a denominação tiver
a Cristo como cabeça, submissa à Palavra, sujeita à voz de Deus, sem se render
ao modelo do mundo – ou seja, sem tomar a forma do mundo, Deus velará com Sua providência a favor dela.
Deus é o Rei, e Cristo o cabeça da Igreja, é Ele que toma as decisões, e Deus
tem total interesse na preservação de uma denominação saudável que vive em
comunhão e amor para sua glória.
8.5 ANEXO – O Cristão e o Trabalho
Nessa seção cito duas fontes sobre a visão minha e da
minha esposa sobre o trabalho: trabalho para a glória de Deus - ainda que às
vezes possa ser difícil e desanimador. O mundo pode trabalhar
excessivamente e/ou amar o dinheiro, ou até tentar de todas as formas ficar
rico, mas para Seus filhos Ele deseja que trabalhemos diligentemente para a
glória de Deus, até, em geral, seis dias por semana (pelo princípio do Sábado)
- pelo menos um para descanso *normalmente*.
A vida dos crentes fiéis é a vontade do Senhor, como nos
tempos bíblicos. Aquele que Deus deu muito dinheiro não é porque é muito
inteligente / sábio / conhecedor / bom etc. mas Deus o abençoou. Não é
comumente assim com os descrentes.
Se Deus abençoar muito alguém Deus vai requerer que a pessoa
canalize isso em alguma boa obra: José, no Egito, não foi levantado apenas para
ficar rico e cuidar da sua família, mas salvar todo o mundo conhecido, em
geral, da fome.
De acordo com o pastor batista Mallet, Marcelo
Teixeira (O que Deus diz sobre o trabalho? Disponível em: <https://www.respostas.com.br/o-que-deus-diz-sobre-o-trabalho/.
Acesso em: Jan. 2026),
“A Bíblia diz que trabalhar é bom e necessário. Entretanto, devido ao pecado, tornou-se difícil e árduo.
Quando Deus criou Adão e Eva, ordenou que eles tomassem conta da terra e dos animais (Gênesis 1:28). Esse trabalho era bom e agradável, mas, quando pecaram, a terra ficou amaldiçoada e o trabalho tornou-se duro (Gênesis 3:17-19).
Trabalhar é um dever?
Sim, a Bíblia ensina que devemos trabalhar para nos sustentar, para sustentar as nossas famílias e, também, para ajudar os outros (Efésios 4:28; 1 Timóteo 5:8).
Não devemos dar lugar à preguiça, porque leva à pobreza e à ruína (Provérbios 6:9-11). O apóstolo Paulo orientando os crentes em Tessalônica, chega a dizer que quem não trabalha também não tem o direito a comer (2 Tessalonicenses 3:10). Todos devem fazer a sua parte para não sobrecarregar uns em detrimento dos outros. Claro que há exceções para algumas pessoas, como, por exemplo, crianças, idosos e pessoas debilitadas fisicamente. No entanto, como regra geral, todos devem contribuir.
As crianças, apesar de não terem a responsabilidade pelo trabalho, também podem ser ensinadas sobre essa necessidade, realizando pequenos serviços domésticos, que não tragam prejuízo à sua saúde, aos estudos e à recreação.
Qual deve ser minha atitude perante o trabalho?
É muito fácil ficar desmotivado e desinteressado pelo trabalho, mas Deus quer que tenhamos uma atitude positiva. Quando trabalhamos, não fazemos isso só para ganhar dinheiro ou cumprir tarefas dadas pelo patrão, trabalhamos para glorificar a Deus (1 Coríntios 10:31).
Para honrar a Deus no trabalho, a Bíblia ensina que:
Devemos nos empenhar para realizar um trabalho bem feito (devemos dar o melhor e não um "jeitinho" para acabar logo o trabalho) - Eclesiastes 9:10.
Precisamos respeitar os nossos patrões e obedecê-los (desde que não vá contra a vontade de Deus), porque eles são autoridades - 1 Timóteo 6:1-2.
Temos que ser justos com colegas e subordinados (quem é empregador deve ser justo com seus empregados, porque Deus também é justo) - Colossenses 4:1.
É imprescindível desenvolver bons relacionamentos no trabalho (não devemos ser briguentos, nem ficar se queixando do trabalho o tempo todo) - Filipenses 2:14-15.
Demandamos ser honestos e fiéis no trabalho que realizamos (para mostrar que, em Jesus, somos diferentes) - 1 Tessalonicenses 4:11-12.
É também importante lembrar de descansar
Deus disse que devemos trabalhar durante seis dias e descansar no sétimo (Êxodo 20:9-10). Também aprovou feriados para O louvarmos e recuperar as forças.
Enquanto a preguiça é pecado, o oposto (obsessão pelo trabalho) também é errado. Trabalhar sem parar para ganhar muito dinheiro e não desfrutar dele é uma insensatez. É bom gostar do trabalho, mas, também é preciso ter outros propósitos na vida (Eclesiastes 4:8)."
Amém.
Para complementar o assunto, como concordo com os Puritanos
na ética sobre o trabalho, cito também Ryken, Leland. Santos no
mundo – Os puritanos como realmente eram, Editora Fiel (1992 apud
Revista Impacto, 2011, Disponível em: <https://revistaimpacto.com.br/etica-puritana-do-trabalho/>.
Acesso em: Jan. 2026).
Mesmo as pessoas que sabem pouco sobre os Puritanos usam a frase “ética Puritana do trabalho” com confiança. Para a maioria, entretanto, é simplesmente um rótulo de múltiplo alcance para cobrir toda uma classe de males correntes: a síndrome do vício de trabalhar, trabalho escravizador, competitividade, culto do sucesso, materialismo e o culto da pessoa autorrealizada.
O “Background”: Divisão Entre Sagrado e Secular
Para entender as atitudes Puritanas em relação ao trabalho, devemos ver o pano de fundo contra o qual estavam reagindo. Durante séculos, foi costume dividir tipos de trabalho nas duas categorias, “sagrado” e “secular”. O trabalho sagrado era realizado por membros de uma profissão religiosa. Todos os outros tipos de trabalho carregavam o estigma de serem seculares.
Esta divisão entre o trabalho sagrado e o secular pode reportar-se ao Talmude Judaico. Uma das orações, obviamente escrita do ponto de vista do escriba, é como segue:
Eu te agradeço, ó Senhor, meu Deus, por me haveres dado minha porção com aqueles que se assentam à casa do saber, e não com aqueles que se assentam pelas esquinas das ruas; pois eu cedo trabalho, e eles cedo trabalham; eu cedo labuto nas palavras da Torah, e eles cedo labutam nas coisas sem importância. Eu me afadigo, e eles se afadigam; eu me afadigo e lucro com isso, e eles se afadigam sem benefício. Eu corro, e eles correm; eu corro em direção à vida por vir, e eles correm em direção ao abismo da destruição.
A mesma divisão de trabalho em categorias de sagrado e secular tornou-se uma característica principal do catolicismo romano medieval. A atitude foi formulada já no quarto século por Eusébio, que escreveu:
Dois modos de vida foram dados pela lei de Cristo à sua igreja. Um está acima da natureza e além do viver humano comum… Inteira e permanentemente separado da vida habitual comum da humanidade, dedica-se somente ao serviço de Deus… Tal é então a forma perfeita da vida cristã. E o outro, mais humilde, mais humano, permite aos homens… ter mentalidade para a lavoura, para o comércio e os outros interesses mais seculares do que a religião… E um tipo de grau secundário de piedade é atribuído a eles.
Esta dicotomia sagrado-secular foi exatamente o que os Puritanos rejeitaram como ponto de partida para sua teoria do trabalho.
A Santidade de Todos os Tipos Legítimos de Trabalho
Foi Martinho Lutero, mais do que qualquer outro, que derrubou a noção de que clérigos, monges e freiras engajavam-se em trabalho mais santo do que a dona de casa e o comerciante. Calvino rapidamente acrescentou seu peso ao argumento.
Como os reformadores, os Puritanos igualmente rejeitaram a dicotomia sagrado-secular. William Tyndale disse que se olhamos externamente “há uma diferença entre lavar louças e pregar a palavra de Deus; mas no tocante a agradar a Deus, nenhuma em absoluto”. Essa rejeição da dicotomia entre trabalho sagrado e secular teve implicações de longo alcance.
Primeiro, considera toda tarefa de valor intrínseco e integra toda vocação com a vida espiritual de um cristão. Torna todo trabalho consequencial, fazendo-o arena para glorificação e obediência a Deus e expressão do amor pessoal (através do serviço) ao seu próximo.
A convicção Puritana quanto à dignidade de todo trabalho tem também o importante efeito de santificar o comum. John Cotton disse isto sobre a habilidade da fé cristã de santificar a vida e o trabalho comuns:
A fé… encoraja um homem em seu chamado por mais simples e difícil que seja… A tais empregos simples um coração carnal não sabe como submeter-se; mas agora a fé havendo-nos convocado, se requer algum emprego simples, encoraja-nos nele. Assim a fé dispõe-se a abraçar qualquer serviço simples que faz parte do seu chamado, no qual um coração carnal ficaria envergonhado de ser visto.
William Perkins declarou que as pessoas podem servir a Deus “em qualquer espécie de chamado, embora seja apenas varrer a casa ou guardar ovelhas”. Nathaniel Mather disse que a graça de Deus “espiritualiza toda ação”; mesmo as mais simples, como “um homem amar sua mulher e filho”, tornam-se “atos graciosos”, e o “seu comer e beber são atos de obediência e, portanto, acham-se em grande conta aos olhos de Deus”.
Os Puritanos revolucionaram as atitudes em relação ao trabalho diário quando levantaram a possibilidade de que “cada passo e aspecto do seu ofício é santificado”. O objetivo era servir a Deus, não simplesmente no trabalho no mundo, mas através do trabalho.
O Conceito Puritano de Chamado
Uma segunda forte afirmação dos Puritanos, além de declarar a santidade de todos os tipos de trabalho, foi que Deus chama cada pessoa para a sua vocação. Todo cristão, diziam os Puritanos, tem um chamado (1 Co 7.17). Segui-lo é obedecer a Deus. O efeito importante desta atitude é que ela torna o trabalho uma forma de corresponder a Deus.
Para começar, a ênfase Puritana em tais doutrinas como Eleição e Providência tornou fácil afirmarem que cada pessoa tem um chamado em relação ao trabalho. William Perkins, em seu clássico Treatise of The Vocations or Callings of Men (Tratado de Vocações ou Chamados dos Homens), escreveu:
Uma vocação ou chamado é um certo tipo de vida, ordenado e imposto ao homem por Deus, para o bem comum… Toda pessoa de todo grau, estado, sexo ou condição, sem exceção, deve ter algum chamado pessoal e particular em que caminhar.
Um efeito do conceito Puritano de chamado é fazer do trabalhador um mordomo que serve a Deus. Deus, de fato, é aquele que designa às pessoas as suas tarefas. Nesta perspectiva, o trabalho deixa de ser impessoal. Além do mais, sua importância não repousa em si; o trabalho é antes um meio pelo qual uma pessoa vive sua relação pessoal com Deus.
Um outro resultado prático da doutrina do chamado cristão é que leva ao contentamento pessoal no trabalho. Cotton Mather escreveu que:
...um cristão deveria seguir sua ocupação com contentamento... É o favor singular de Deus a um homem que este possa atender à sua ocupação com contentamento e satisfação… Seu negócio neste assunto está entravado com quaisquer dificuldades ou inconveniências? O contentamento sob essas dificuldades não é parte pequena da sua homenagem àquele Deus que o colocou onde você está.
Se todos têm um chamado, como as pessoas podem saber para o quê foram chamadas? Os Puritanos desenvolveram uma metodologia para determinar seu chamado; não mistificaram o processo. Richard Steele, de fato, declarou que Deus raramente chama as pessoas diretamente “nos últimos dias”, e que qualquer um que alega ter tido uma revelação de Deus “deve produzir dons e qualificações extraordinárias, a menos que não passe de presunção e engano”.
Os Puritanos preferiam confiar em tais coisas como “os dotes e inclinações internos”, “circunstâncias externas que podem levar… a um curso de vida em vez de outro”, o conselho de “pais, guardiões e, em alguns casos, magistrados”, e “a natureza, a educação e os dons… adquiridos”. Eles também criam que se as pessoas estivessem no chamado certo, Deus as equiparia para realizar seu trabalho: “Quando Deus me convoca para uma posição, ele me dá alguns dons para aquela posição”.
Sobre o assunto de escolha da vocação, Milton, que desde a infância teve um forte chamado para ser poeta, escreveu que “a natureza de cada pessoa deveria ser especialmente observada e não desviada noutra direção, porque Deus não pretende todas as pessoas para uma só coisa, mas cada uma para seu próprio trabalho”.
Os Puritanos acreditavam na lealdade a um chamado. Uma vocação não era para ser assumida nem abandonada levianamente. Enquanto os Puritanos em geral não criam que uma pessoa nunca pudesse legitimamente mudar de ocupação, eram claramente cautelosos quanto à prática. William Perkins falou de “uma perseverança nos bons deveres” e alertou contra “ambição, inveja, impaciência”, acrescentando que “a inveja… quando vemos outros colocados em melhores chamados e condições do que nós… é um pecado comum, e a causa de muita dissensão na comunidade”.
Para resumir, a ideia Puritana de chamado cobria um conjunto de ideias correlatas: a providência de Deus em arranjar tarefas humanas, trabalho como resposta de um mordomo a Deus, contentamento com as tarefas pessoais e lealdade à vocação pessoal. Estas ideias foram admiravelmente captadas na exortação de John Cotton de “servir a Deus no seu chamado, e fazê-lo com regozijo, fidelidade e uma mentalidade celeste”.
A Motivação e as Recompensas do Trabalho
Desde a época em que Benjamin Franklin proferiu seus provérbios experientes sobre a riqueza como o objetivo do trabalho até nosso próprio século, quando gigantes industriais têm reivindicado que o seu sucesso era prova de que eram os eleitos de Deus, nossa cultura tem visto o trabalho primordialmente como o caminho para as riquezas e posses. Essa ética do trabalho secularizada tem sido atribuída aos Puritanos e a seu precursor Calvino, e tem sido aceita como um axioma de que a ética Puritana baseia-se na riqueza como a recompensa máxima pelo trabalho e a prosperidade como um sinal de santidade.
Mas é nisso que os Puritanos realmente criam? As recompensas do trabalho, de acordo com a teoria puritana, eram morais e espirituais, isto é, o trabalho glorificava a Deus e beneficiava a sociedade. Ao ver o trabalho como uma mordomia para com Deus, os Puritanos abriram o caminho para uma nova concepção das recompensas do trabalho, como no comentário de Richard Steele: “Vocês trabalham para Deus, que certamente os recompensará para contentamento do seu coração”. Que essas recompensas eram primariamente espirituais e morais é abundantemente claro nos comentários Puritanos.
William Perkins afirmou que:
...o principal fim das nossas vidas... é servir a Deus no serviço aos homens nos afazeres de nossos chamados... Alguns homens talvez dirão: O quê, não devemos labutar nos nossos chamados para manter nossas famílias? Respondo: isso deve ser feito; mas esse não é o escopo e a finalidade de nossas vidas. A verdadeira finalidade de nossas vidas é prestar serviço a Deus no serviço ao homem.
Quanto às riquezas que devem vir do trabalho, elas “podem nos capacitar para aliviarmos nossos irmãos necessitados e promover boas obras para a igreja e o Estado” (Richard Baxter).
De acordo com John Cotton, “a fé não pensará que teve um chamado satisfatório a menos que sirva não somente para seu próprio proveito, mas também para o proveito de outros homens”.
O que é notável com respeito a tais frases é a integração entre Deus, a sociedade e o “ego” que convergem no exercício do chamado pessoal. O interesse próprio não é totalmente negado, mas é definitivamente minimizado nas recompensas do trabalho.
Ao manter sua visão dos fins morais e espirituais do trabalho, os Puritanos extraíram a conclusão lógica de que esses mesmos objetivos deveriam governar a escolha pessoal de uma vocação. Richard Baxter instou:
Escolha aquele emprego ou chamado no qual você pode ser mais útil a Deus. Não escolha aquele no qual possa ser mais rico ou ilustre no mundo, mas aquele no qual possa fazer maior bem e melhor escapar de pecar. Quando dois chamados igualmente conduzem ao bem público, e um deles tem a vantagem das riquezas, e o outro é mais vantajoso à alma, o último deve ser preferido.
O complemento desta ênfase nas recompensas morais e espirituais do trabalho é a frequente denúncia de pessoas que usam o trabalho para gratificar ambições egoístas. Contrário ao que muitos pensam, a ideia da pessoa “autorrealizada” não atraía os Puritanos, se por “autorrealizada” queremos dizer pessoas que alegam ter sido bem-sucedidas por seus próprios esforços e que ostensivamente gratificam suas inclinações materialistas com o dinheiro que ganham.
Baxter falou desdenhosamente da auto exaltação: “Cuidem para que, sob a pretensão de diligência no seu chamado, não sejam inclinados à mentalidade terrena e a cuidados excessivos ou cobiçosos planos de prosperar no mundo”. “Cada homem por si, e Deus por nós todos”, escreveu Perkins, “é vil e diretamente contra o propósito de todo chamado”. Ele, então, acrescentou:
Profanam suas vidas e chamados os que os aplicam à aquisição de honras, prazeres, benefícios, comodidades do mundo etc., pois assim vivemos para outro fim diferente do que Deus indicou, e desse modo servimos a nós mesmos, e, por conseguinte, nem servimos a Deus nem aos homens.
Sucesso é Bênção de Deus, Não Algo Conquistado
O Puritanismo e o calvinismo mais comumente consideravam o trabalho como o meio pelo qual as pessoas conquistam seu próprio sucesso e riqueza? É normalmente afirmado que sim, mas procuro em vão pela substanciação da afirmativa. O calvinismo não ensina uma ética de autoconfiança, como ensina nossa ética moderna do trabalho. É, ao contrário, uma ética da graça: quaisquer recompensas tangíveis advindas do trabalho são o dom da graça de Deus.
Calvino mesmo havia negado que o sucesso material é sempre o resultado do trabalho. Era Benjamin Franklin, e não os primeiros protestantes, que tinha a confiança que “cedo dormir e cedo levantar tornam um homem saudável, abastado e sábio”.
De acordo com George Swinnock, o homem de negócios bem-sucedido nunca pode dizer que seus próprios esforços foram responsáveis pelo seu sucesso; muito embora os humanos façam a sua parte ativa, “não há a menor roda na engrenagem da natureza que não dependa de Deus para seu movimento a cada instante”.
É verdade que o estilo de vida Puritano, uma mistura de diligência e frugalidade, tendia a fazer as pessoas relativamente prósperas, ao menos parte do tempo. A coisa importante, porém, é como os Puritanos viam sua riqueza. A atitude Puritana era de que riqueza era um bem social, não uma propriedade pessoal – um dom de Deus, não o resultado de esforço humano somente ou um sinal da aprovação de Deus.
Na ética Puritana, a virtude de trabalho dependia quase completamente dos motivos pelos quais as pessoas o realizavam.
Moderação no Trabalho
Uma última herança que os Puritanos legaram na sua visão de trabalho foi a necessidade de um senso de moderação. Eles tentaram em teoria manter uma posição intermediária entre os extremos da ociosidade ou preguiça por um lado e escravismo ao trabalho por outro. Na prática, possivelmente erraram na direção do excesso de trabalho.
Há um ponto no qual a moderna interpretação da ética Puritana está correta – que os Puritanos escarneciam do ócio e louvavam a diligência. Baxter expôs sua rudeza usual na questão da ociosidade: “É suíno e pecaminoso não trabalhar”. Robert Bolton chamou a ociosidade de “a própria ferrugem e o câncer da alma”.
Mesmo a “espiritualidade” não era desculpa alguma para a ociosidade na visão dos Puritanos. Thomas Shepard tinha o seguinte conselho para um zelote religioso que reclamava que os pensamentos religiosos o distraíam enquanto estava no trabalho:
Como é pecado nutrir pensamentos mundanos quando Deus lhe designou um trabalho em empregos espirituais e celestiais, assim é, em alguns aspectos, tão grande pecado fazer-se distrair por pensamentos espirituais [observação minha, Roberto, pensamentos espirituais que distraiam a pessoa] quando Deus lhe põe a trabalhar em empregos… civis.
Parte da repulsa Puritana contra a ociosidade por um lado e o louvor ao trabalho por outro era a convicção de que o trabalho era uma ordenança da criação e, portanto, uma necessidade para o bem-estar humano. “Adão na sua inocência tinha todas as coisas à sua disposição”, escreveu William Perkins, “no entanto, Deus o ocupou num chamado”.
Mas a ética Puritana não levaria inevitavelmente à síndrome do trabalho excessivo? Não, de acordo com os Puritanos. Eles tentaram equilibrar sua diligência com restrições definidas contra o excesso de trabalho. “Cuidado com muitos negócios ou com o planejá-lo demais ou desordenadamente”, advertiu John Preston. Philip Stubbes advertiu que “todo cristão está comprometido pela consciência diante de Deus” a não permitir que “seus cuidados imoderados” ultrapassem “os limites da verdadeira santidade”.
Sobre o assunto de “fazer bicos”, Richard Steele alegou que uma pessoa não deve “acumular dois ou três chamados meramente para aumentar suas riquezas”.
Trabalhar com zelo, mas não dar sua própria alma pelo trabalho era aquilo pelo que lutavam. John Preston expressou-se desta forma:
Você deve lidar com as coisas no mundo e não se corromper por elas, tendo afeições puras, mas quando você tem cobiça desordenada por qualquer coisa, então ela profana seu espírito.
Sumário
Para um resumo da doutrina de trabalho dos Puritanos, fazemos bem em voltar ao épico de John Milton, Paradise Lost (Paraíso Perdido). Milton incorporou muito do que os Puritanos criam sobre o trabalho em seu retrato da vida de perfeição de Adão e Eva, no Jardim do Éden. Milton repetidamente enfatizou que o trabalho no Paraíso não era apenas agradável, mas também necessário.
Não há melhor sumário da ética Puritana do trabalho do que estas palavras de Adão para Eva em Paradise Lost:
O homem tem seu trabalho diário de corpo ou mente designado, o que declara sua dignidade, e a estima do céu em todos os seus caminhos.
Podemos vislumbrar aqui a crença Puritana sobre Deus como aquele que chama as pessoas a realizar tarefas, sobre a dignidade do trabalho, sobre como a atitude apropriada dirigida aos objetivos do trabalho pode transformar toda tarefa em atividade sagrada."
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