quarta-feira, 12 de agosto de 2026

(Tricotomia vs Dicotomia, Origem da Alma, Imagem de Deus) Republicando conteúdos bons #4 da Teologia Sistemática Interdenominacional

 

8 DOUTRINA DO HOMEM

8.1 Introdução à Antropologia Bíblica: Natureza Humana

Os cristãos têm como regra de fé que a Bíblia é a Palavra de Deus. Nela está o evangelho de Cristo, a mensagem de boas novas, que é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. Além disso, a Bíblia trata de inúmeros assuntos, e um deles, muito interessante, é que ela nos diz, além de que o ser humano possui corpo, que possui uma alma, uma parte física e uma não física. A Escritura usa termos como alma, espírito e corpo, e a Igreja com seus teólogos ao longo de dois mil anos procurou compreender um pouco do que pode ser achado na revelação de Deus acerca disso, nomeando doutrinas como dicotomia, tricotomia e união psicossomática. Essas três linhas acerca do que o ser humano pode ser constituído na sua essência são as mais adotadas por cristãos conservadores e fiéis à doutrina dos apóstolos, que creem acertadamente que o homem possui alma, uma parte imaterial e espiritual, e não só corpo físico. Nesta obra procuro sucintamente descrever uma dicotomia um pouco diferente, como é pouco conhecida, para ver se é possível que ela se encaixe no que a Bíblia tem a dizer sobre isso.

 

8.1.1 O Homem como uma Unidade Composta por Alma e Corpo

Neste livro, deixo primeiramente a minha posição, baseada na teologia sistemática atual e exaustiva de Wayne Grudem, com um ou outro aprimoramento meu. Portanto, creio que o homem é um ser, uma unidade composta por uma parte material, o corpo, e uma parte espiritual ou imaterial, a alma ou o espírito. Esta é a tese que procurarei defender, e espero que os leitores não tenham aversão a isso, mas leiam até o fim esse capítulo curto para que esta visão possa ser esclarecida adequadamente, se fiel à Escritura.

Nesta vida, a Bíblia nos considera uma unidade na qual corpo e espírito agem juntos como uma única pessoa. Grudem (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, 1080 p, p. 398).

O que é alma, ou espírito?

Alma significa o elemento imaterial da nossa natureza que se relaciona com Deus (Sl 103.1; Lc 1.46) e que vive para sempre (Ap 6.9). Grudem (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, 1080 p, p. 396).

A Escritura, em geral, enfatiza o ser humano pleno quando é composto de duas partes unidas (um todo): o ser humano é completo quando permanece com corpo unido à alma (material com espiritual, ex. estado terreno e estado eterno), e não só alma sem corpo (espiritual sem material, ex. estado depois da morte e antes da ressurreição). Além disso, interpretando tanto o AT (Antigo Testamento) como o NT (Novo Testamento) pelas leis da hermenêutica, chegamos à conclusão que a posição da qual falou Jesus, de que o homem possui um corpo e uma alma, posição encontrada em Mateus 10.28 “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo” defende melhor a Escritura como um todo, pois alma e espírito são termos muitas vezes intercambiáveis como veremos adiante. Desta maneira, unindo a ênfase das Escrituras de uma unidade com as palavras de Cristo de um corpo e uma alma em Mateus 10.28 (ou as palavras de Paulo, corpo e espírito, em diversos lugares), chegamos à conclusão de Grudem, de que o homem é uma unidade composta por duas partes, corpo e alma.

Rejeitamos a dicotomia e o dualismo platônico, de que o corpo é inferior à alma, para ficar com a dicotomia bíblica, que dá o valor ao corpo, assim como à alma, pois o corpo é importante para Deus, de tal modo que ocorrerá, na vinda de Cristo, a ressurreição do corpo. Portanto, a dicotomia bíblica defendida por Grudem, adotada neste livro, não tem ligação com a filosofia platônica.

O corpo não é inferior à alma, pois Deus deu valor ao corpo, mesmo o terreno, chamando-o de templo do Espírito Santo. Um templo de Deus é sagrado, é santo, não deve ser maculado, não deve ser instrumento para o mal, pois o Senhor é quem habita dentro dele. Além disso, Deus disse que o homem e a mulher foram criados como imagem de Deus:

Gn 1:27 E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Esse verso diz que o ser humano, tanto o homem como a mulher, foram criados segundo a imagem de Deus. Mas qual a diferença do homem e da mulher, senão o corpo? A alma deles é igual. Portanto, cremos que o ser humano, com corpo unido à alma, é imagem de Deus, visto que esse versículo acerca da imagem de Deus menciona o gênero masculino e feminino. Então, se não apenas a alma do homem é imagem de Deus, mas o corpo também faz parte da imagem de Deus, segue-se que nisso o corpo não deve ser inferiorizado ou considerado apenas uma habitação da alma.

Ainda que Paulo tenha dito que a carne milita contra o Espírito, isso não quer dizer que o corpo milita contra o espírito (uma parte humana contra a outra, num dualismo), mas quer dizer que a carne (natureza pecaminosa) milita contra o Espírito Santo (letra maiúscula). Quer dizer que a natureza pecaminosa (carne) milita contra a natureza de Cristo (Espírito).

Mesmo assim, às vezes carne significa simplesmente corpo, e não natureza pecaminosa: Jesus disse dEle mesmo: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mt 26.41b). E Jesus nunca teve natureza pecaminosa.

Enfim, acerca da dicotomia de uma unidade de corpo e alma, diz Grudem (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, 1080 p):

Quando Deus fez o homem, “soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2.7). Adão é aqui uma pessoa unificada, com corpo e alma vivendo e agindo juntos.

Portanto, dando uma ênfase neste verso de Gênesis 2.7, temos: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra [1, corpo, elemento material] e soprou em suas narinas o fôlego de vida [2, espírito/alma, elemento espiritual], e o homem se tornou um ser vivente [1+2, alma + corpo (concordando nisto com Mateus 10.28), uma unidade].

 

8.1.2 Corpo, Alma, Mente e Cérebro

Filosofando sobre a ligação de corpo e alma, e como a mente funciona, podemos pensar que:

1. O corpo possui um cérebro.

2. Sem o cérebro o homem terreno não pode pensar, ou seja, o cérebro é um instrumento para a mente.

3. A Bíblia fala que a alma pensa (Ap 6.9-10 – almas sem corpo clamando e raciocinando).

4. Portanto, podemos crer que a alma do homem, que pensa, utiliza o cérebro como meio, pelo qual ele pensa na Terra. Podemos crer que a alma/espírito do homem é o princípio de vida que rege a mente em geral, e, na Terra, o faz através do cérebro.

Antes do homem ser concebido ele não existia, nem possuía alma. Desde a sua concepção até a eternidade, pois a alma é imortal segundo a Bíblia, o homem possui uma alma, e pensa. Nesta vida, faz sentido que a alma ativa a mente pelo cérebro. Além disso, se o cérebro for danificado em alguma parte essencial, a mente humana será bloqueada ou prejudicada, e o homem não pensará corretamente, pois o cérebro é um instrumento para o homem pensar, para a mente nesta realidade.

A Bíblia diz que o homem, depois de morto, ainda pensa e está consciente diante de Deus, seja no tormento ou no gozo celeste. Como a Bíblia não fala que o homem depois de morto e antes da eternidade (estado intermediário) possuirá um corpo temporário (pois o corpo terreno viu a corrupção, virou pó, e o corpo incorruptível só será inaugurado na eternidade), certamente a alma/espírito possui intelecto, emoção e vontade (sendo princípio de vida) sem precisar de um cérebro no estado intermediário.

Na terra a fala se propaga através do som, e nesta vida o ser humano pensa com um cérebro. Já no Paraíso de Deus não se sabe se tem ar para a fala se propagar, creio que não, mas Deus é quem sustenta a comunicação sem ar e o pensamento de almas sem corpo conforme relatos na Escritura.

Se a alma pensa sozinha sem ajuda do cérebro nessa realidade, ou seja, se a mente apenas está na alma ignoramos a ciência, que mostra que um cérebro danificado de um homem, que claramente possui uma alma, impede a mente (como a lobotomia). Mas a Bíblia diz que a alma pensa, portanto ela ativa a mente pelo cérebro, e no estado intermediário, ela mesmo promove o raciocínio e a comunicação.

Apesar de tudo isso, o homem é uma unidade, e como tal o seu corpo e espírito não permanecem separados nesta vida. Mais detalhes acerca da unidade do homem em sua relação mente-cérebro na seção 8.1.7 O Homem é uma Unidade: Aplicações Práticas.

 

8.1.3 Alma e Espírito: Diferenças?

Numa introdução a esse tema, o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, IBAD (Teologia Sistemática: O Estudo das Doutrinas Bíblicas [Isaías Rosa]. 4ª Ed. 2012) ensina que:

A cultura judaica, mesmo desconhecendo a teoria dicotomista, reconhecia no homem apenas dois elementos: o material (corpo) e o espiritual (alma ou espírito). A alma ou o espírito são sempre vistos como a totalidade espiritual do homem.

O Antigo Testamento fala sobre uma nação, os judeus. Jesus era judeu. Os primeiros discípulos (as primícias) no Novo Testamento eram judeus. Portanto, a Escritura defende a dicotomia bíblica. Tricotomistas, o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, IBAD (2012) também diz que "a distinção que os escritores bíblicos fazem entre o espírito e a alma só tem conotação didática e não prática."

Isso começa a mostrar que alma e espírito, na realidade, não compreendem diferença significativa.

Essa seção é apenas uma introdução, e os versículos bíblicos aplicados a esse tema estão na seção seguinte junto com os raciocínios teológicos.

 

8.1.4 Dicotomia e Hermenêutica Bíblica. Críticas à Tricotomia

Samson, John (16 Regras de interpretação bíblica (16 Rules of Biblical Interpretation). 2012. Disponível em: <https://static1.squarespace.com/static/58a73709414fb5ac487511d0/t/5cdb0ac28165f59b32ec9446/1557859016614/Johnson_Sam.+16+Rules+of+Biblical+Interpretation.pdf>. Acesso em: ago. 2026) escreveu 16 regras de interpretação da Bíblia. A décima primeira é “11. Contexto do autor (isto se refere a olhar para todos os escritos de uma pessoa - os escritos de João, os escritos de Paulo, os escritos de Lucas etc.)”.

Portanto, temos que ver se a Escritura inteira usa do mesmo modo os termos “alma” e “espírito”. E a resposta é negativa!

Vendo apenas os escritos de Paulo, de acordo com Grudem,

é muito mais característico da terminologia paulina usar a palavra “espírito” para falar do nosso relacionamento com Deus na adoração e oração. Paulo não usa a palavra “alma” com muita frequência (14 vezes contra 101 no Novo Testamento). O uso da palavra “alma” como o lado não físico do homem é mais característico dos evangelhos e de muitas passagens do Antigo Testamento.” (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, 1080 p).

O que essas duas referências unidas nos levam a entender? Que se alguém interpretar isoladamente o livro de, por exemplo, 1Tessalonicenses (Paulo), vai ficar com a impressão de que a Bíblia defende a teoria tricotomista (1Ts 5.23), só porque leu corpo, alma e espírito, três palavras lado-a-lado (e isso só ocorre UMA vez na Bíblia toda, e ainda num contexto de oração!). Se alguém não ler esse trecho, mas ler apenas o evangelho de Mateus junto com Eclesiastes (Antigo Testamento), será dicotomista e não tricotomista (Mateus 10.28 “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” unido à Eclesiastes 12:7 “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” – compare: pó = corpo; espírito = alma). Se alguém ler Hebreus isoladamente, em especial Hb 4.12 (“...a palavra de Deus penetra até a divisão da alma e do espírito”), vai acreditar, se interpretar isso com o segundo sentido (pois o primeiro sentido é falar do poder penetrante da Palavra de Deus de modo figurado), de modo literal, que alma e espírito são substâncias diferentes. Porém, claramente esse trecho é figurado (e não uma afirmação doutrinária), pois, por que a Palavra de Deus iria querer dividir, por exemplo, juntas e medulas, ou alma e espírito? Ela não o faz, mas ela penetra no mais íntimo do nosso ser, e conhece as intenções e motivações do coração (do nosso íntimo)!

O que quero dizer? Que é muito simplista e errado pegar praticamente apenas Hebreus 4.12 e 1Tess 5.23 para formar uma doutrina (no caso, defender a tricotomia)! Temos que pegar a Bíblia inteira, não só os escritos de Paulo e a epístola aos Hebreus, como 99% dos tricotomistas fazem crendo que esses dois versos unidos são provas irrefutáveis! Por que eu digo isso? Leia por si mesmo. Veja o que fala a Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2016), Cap. VII, pág. 44:

A constituição humana. Entendemos que o ser humano é constituído de três substâncias, uma física, corpo, e duas imateriais, alma e espírito. Exemplo dessa constituição nós temos no próprio Jesus. Essa doutrina é chamada tricotomia. Cristo é apresentado nas Escrituras com essas três características distintas e essenciais: “todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis [...]” (1Ts 5.23); “[...] e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas” (Hb 4.12). Em 1 Coríntios 2.14-16; 3.1-4, o apóstolo Paulo mostra o homem “natural”, termo que literalmente quer dizer “pertencente à alma”, o homem carnal e o homem “espiritual”. Por essas passagens do Novo Testamento, a natureza humana consiste numa parte externa, o corpo ou a carne, chamada “homem exterior” e uma parte interna, denominada “homem interior”, composta do espírito e da alma.

As Assembleias de Deus, tricotomistas, só pegam praticamente 1Ts 5.23, Hb 4.12 e 1Co 2.14-16 para formar essa doutrina da constituição humana (não estou aqui entrando no mérito do que é o corpo, a alma e o espírito separadamente)! Vai falar com um tricotomista, ele só cita esses dois primeiros versos para fazer sua doutrina, ou seja, só cita Paulo e o escritor de Hebreus (que talvez seja Paulo) como base (e olha que li as notas de rodapé selecionadas pela Assembleia de Deus para aprofundar o assunto)! Devemos considerar TODA a Bíblia para fazer uma doutrina, e não casos isolados, ou seja, não pegar um caso que é exceção, e extrapolar (esticar) para a Bíblia toda.

Enfim, eles acreditam também nisto:

Segundo os tricotomistas, a alma do homem inclui intelecto, emoções e vontade. Eles sustentam que todas as pessoas possuem alma e que os diferentes elementos da alma podem tanto servir a Deus como estar rendidos ao pecado. Argumentam que o espírito do homem é a faculdade mais elevada que se torna viva quando a pessoa se torna cristã (Rm 8.10). O espírito da pessoa, então, seria a parte que mais diretamente adora e ora a Deus (Jo 4.24; Fp 3.3). Grudem (Manual de Teologia Sistemática: uma introdução aos princípios da fé Cristã. Editora Vida. 2001, 551 p.).

Entretanto, a Bíblia não é tão simples assim, e deixamos os comentários de Grudem (2001), que pega versos da Bíblia inteira, ou seja, de diversos escritores: Lucas, João (João e Apocalipse), Autor de Hebreus, Pedro, Mateus, Tiago, as cartas de Paulo, Provérbios e Eclesiastes (Salomão), Salmos (Davi) e Deuteronômio (Moisés) para explicar adequadamente que o que os tricotomistas afirmam não engloba a Bíblia toda:

“Parece que às vezes a alma e o espírito são usados indistintamente: João 12.27: Jesus diz “agora, está angustiada a minha alma”; e em um contexto muito semelhante João diz que Jesus “perturbou-se em espírito” (Jo 13.21). Maria diz em Lucas 1.46-47: “Minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. Pessoas que morreram e foram para o céu ou inferno podem ser chamados de “espíritos”: Hb 12.23 os espíritos dos justos aperfeiçoados”; 1Pe 3.19 “espíritos em prisão”; ou “almas”: Ap 6.9: vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus...”; Ap 20.4: “Vi as almas dos que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus...”.

O homem é visto como possuindo tanto “corpo e alma” (Mt 10.28: Jesus diz para não temer aqueles que “matam o corpo, mas não podem matar a alma”) como “corpo e espírito” em 1Co 5.5 (Paulo quer que a igreja de Corinto entregue um irmão em pecado a Satanás “para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor”). Isso não significa que Paulo tenha se esquecido da salvação da alma do homem; ele simplesmente usa a palavra espírito para referir-se à totalidade da existência imaterial de uma pessoa. Tiago diz que “o corpo sem espírito está morto” (Tg 2.26) – e não menciona alma – e Paulo aprova as mulheres que estão preocupadas em “serem santas no corpo e no espírito” (1Co 7.34). Tudo o que é dito que a alma faz é também dito que o espírito faz, e vice-versa.

Não é mencionado que as atividades do pensamento, do sentimento e das decisões são executadas somente pela alma. Nosso espírito também pode experimentar emoções: At 17.16: Paulo diz que “o seu espírito se revoltava”; Jo 13.21: Jesus “perturbou-se em espírito”. É possível ter o “espírito oprimido” (Pv 17.22). As funções de conhecer, perceber e pensar também podem ser executadas por nosso espírito. Marcos fala que Jesus “percebeu logo em seu espírito (Mc 2.8)”; Em Rm 8.16, quando o Espírito Santo “testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus”, nosso espírito recebe e entende esse testemunho (conhece). Nosso espírito parece conhecer nossos pensamentos muito profundamente, pois Paulo pergunta: “Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não ser o espírito do homem que nele está?” (1Co 2.11). Vemos que tanto a alma como o espírito são termos usados para descrever o lado imaterial das pessoas em geral, e é difícil ver qualquer real distinção no uso destes termos.

A alegação tricotomista de que o espírito é o elemento em nós que se relaciona mais diretamente com Deus na adoração e na oração não parece ter o apoio da Escritura. Lemos muitas vezes a respeito da alma adorando a Deus e se relacionamento com ele em outras espécies de atividade espiritual: “A ti, Senhor, elevo a minha alma” (Sl 25.1); “A minha alma descansa somente em Deus” (Sl 62.1); “Bendiga o Senhor a minha alma!” (Sl 103.1); “Louve, ó minha alma ao Senhor” (Sl 146.1). “Minha alma engrandece ao Senhor” (Lc 1.46). A alma pode orar a Deus, como Ana sugere: “eu estava derramando minha alma diante do Senhor” (1Sm 1.15).

A visão tricotomista encara geralmente o espírito como mais puro que a alma e, quando renovado, livre do pecado e capaz de responder às sugestões do Espírito. Contudo, Paulo sugere que pode haver impureza (ou pecado) em nosso espírito (2Co 7.1) quando encoraja os cristãos a se purificarem “de tudo o que contamina o corpo e o espírito”. O Senhor tornou o “espírito” de Siom, rei de Hesbom, obstinado (Dt 2.30). Salmo 78.8 fala de pessoas rebeldes de Israel: “gente de espírito infiel”; É possível para o pecador ter “um espírito pretensioso” (Ec 7.8). Daniel diz que o “espírito” de Nabucodonosor “se tornou soberbo e arrogante” (Dn 5.20). 

Grudem (Manual de Teologia Sistemática: uma introdução aos princípios da fé Cristã. Editora Vida. 2001, 551 p.).

Lund e Nelson, em Hermenêutica (2007), afirmam dez regras para interpretação adequada da Bíblia. A décima diz que uma doutrina, para ser bíblica e exata, deve expressar tudo quanto a Escritura diz a respeito dela:

10° – Que, à parte da correta interpretação de passagens e textos separados quanto às doutrinas, estas só são bíblicas e exatas quando expressam tudo quanto dizem as Escrituras em relação a elas.

Então, depois de tudo isso, afirmo que a teoria tricotomista da natureza humana é fruto de uma hermenêutica ou exegese deficiente. Eu poderia mostrar um exemplo: alguém não pode afirmar que um verso da Escritura como 1Ts 5.23 nos mostra com certeza que o homem é composto de 3 partes (corpo, alma e espírito), e não de 4 partes, como diria pelo mesmo princípio Marcos 12.30,33 (coração, alma, entendimento e forças). Bom, nós não temos o poder ou responsabilidade para decidir qual verso fala da natureza humana, ou qual verso está acima do outro nesta questão, para extrair a interpretação que nós queremos da Escritura, se são 3 elementos (1Ts 5.23), 4 elementos (Mc 12.30,33), ou talvez os 6 elementos (ambos), mas a Escritura interpreta a Escritura, com o auxílio de paralelos de palavras, paralelos de frases, paralelos de ideias, respeitando o contexto, e assim por diante. A Escritura deve mostrar a verdadeira interpretação por ela mesma, e nós devemos aceitar. Tg 1.5 E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada. Então, 1Ts 5.23 e Marcos 12.30,33 não falam de partes distintas do homem, mas “corpo, alma e espírito”, e “coração, alma, entendimento, e forças” são termos que significam e enfatizam, juntos, a totalidade do homem, o homem como um inteiro.

Tricotomistas, o próprio Comentário Bíblico Pentecostal (2009) de Arrington e Stronstad, da CPAD, afirma em 1Ts 5.23 (E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo):

Esta é a única ocasião em que Paulo usa a fórmula tripla de espírito, alma e corpo; e à luz do contexto da oração, deveríamos exercitar a cautela a respeito do quanto a teologia formal pode ser inferida. Paulo está enfatizando como a santificação se aplica a todo o ser de uma pessoa, como é indicado pelas palavras gregas traduzidas como “tudo” e “todo”. Como Bruce (Bruce, F. F., 1 and 2 Thessalonians, WBC, 1982) diz: “é precário tentar construir uma doutrina tripartida da natureza humana” a partir de tal contexto. Arrington e Stronstad (2009).

Portanto, se alguém é tricotomista, é tricotomista talvez porque não entenda adequadamente (ou não teve curiosidade de ir a fundo) a disciplina “hermenêutica”, com as leis e princípios de interpretação das Escrituras. O que me leva a crer que a tricotomia me parece metodologicamente frágil à luz da Escritura como um todo. Tenho visto ser muito difícil um dicotomista fazer um tricotomista mudar de opinião quando eles não conhecem as leis da hermenêutica bíblica – estes se apoiam fortemente em apenas dois versos da Bíblia inteira. Eu mesmo era tricotomista, e mudei minha concepção da natureza humana ao ver que até Armínio (cuja soteriologia foi adotada amplamente nas Assembleias de Deus) era dicotomista; também, vi que esse outro princípio defendido por Samson, John (2012), em suas Regras de Interpretação da Bíblia, não estava sendo usado pelos tricotomistas: “15. Interprete as passagens pouco claras [textos obscuros e isolados] nas Escrituras à luz do claro. Embora todas as Escrituras sejam dadas por Deus, cada passagem não é igualmente clara (fácil de entender). Até mesmo o apóstolo Pedro lutou com os escritos de Paulo às vezes, como ele achou algo “difícil de entender, o que o indesejável e instável distorce, como fazem também o resto das Escrituras, para a sua própria destruição” (2Pedro 3.16).”

Enfim, a tricotomia, acerca do espírito e da alma, também diz: “É por meio dele [do espírito] que se adora a Deus, e que ele se torna o centro de devoção a Deus quando passa a ser morada do Espírito Santo”. “A alma é a sede do apetite físico, das emoções, dos desejos tanto bons como ruins, das paixões e do intelecto. É o centro afetivo, volitivo e moral da vida humana.” Declaração de Fé das Assembleias de Deus (2016).

Grudem (1999) critica tal separação alma-espírito:

Se concebemos o espírito como o elemento humano que se relaciona mais diretamente com Deus, e se cremos que o espírito é algo distinto do intelecto, das emoções e da vontade, podemos facilmente:

1. Cair numa espécie de cristianismo intelectualista [pois o intelecto e a vontade não são espirituais nem adoram a Deus segundo os tricotomistas] que acredita que o trabalho acadêmico de fôlego é de certo modo “não espiritual” – visão que contradiz o mandamento de Jesus de amar a Deus com todo o nosso “entendimento” (Mc 12.30) e o desejo de Paulo de levar “cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5). Tal separação entre a esfera do “espírito” e a esfera do intelecto pode muito facilmente levar ao desprezo da sã doutrina ou da necessidade de intenso ensino e profundo conhecimento da Palavra de Deus, contradizendo assim a meta de Paulo, de trabalhar junto ao povo de Deus para promover a sua “fé” e o seu “conhecimento da verdade segundo a piedade” (Tt 1.1; cf. v. 9). Do mesmo modo, se concebemos o espírito como um elemento humano distinto que se relaciona mais diretamente com Deus, podemos facilmente passar a desprezar a importância do estudo bíblico e da madura sabedoria nas decisões, enfatizando excessivamente o discernimento “espiritual” na esfera da orientação, ênfase essa que, ao longo da história da igreja, desviou muitos cristãos zelosos para falsos ensinamentos e práticas insensatas.

[Quantos cristãos que eu conheço que dizem que teologia e debates são inúteis, dizendo: “Vão ganhar almas!”. Mas, cada um tem um dom, e tem almas que são ganhas mediante a defesa da fé e o esclarecimento da fé cristã, através de estudos, leitura e debates teológicos. Alguns são evangelistas natos, com este dom. Outros são teólogos natos, com o dom da palavra do conhecimento].

2. Pensar que as emoções não são importantes, ou não realmente espirituais, pois são consideradas como componentes da alma, não do espírito; Grudem (1999).

Vou dar mais uma ênfase aqui. Se com tudo isso, ainda os tricotomistas acreditem que a Escritura realmente diferencia alma e espírito, veja Hoekema (Criados à Imagem de Deus. 3ª ed. Cultura Cristã. 2018), que selecionou alguns trechos para dizer que alma e espírito são iguais, ou seja, empregadas muitas vezes indistintamente nas Escrituras:

O homem é descrito na Bíblia tanto como alguém que é corpo e alma como alguém que é corpo e espírito: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10.28); “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito” (1Co 7.34); “Assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé sem as obras é morta” (Tg 2.26).

A tristeza é atribuída tanto à alma como ao espírito: “levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (1Sm 1.10); “Porque o Senhor te chamou como a mulher desamparada e de espírito abatido; como a mulher da mocidade, que fora repudiada, diz o teu Deus” (Is 54.6); “Agora, está angustiada a minha alma” (Jo 12.27); “Ditas estas coisas, angustiou-se Jesus em espírito” (Jo 13.21); “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade” (At 17.16); “porque este justo [Ló], pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles (2Pe 2.8).

O louvor e o amor a Deus são atribuídos tanto à alma como ao espírito: “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1.46,47); “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12.30).

A salvação é associada tanto à alma como ao espírito: “acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma” (Tg 1.21); “que o autor de tal infâmia seja... entregue a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo, no dia do Senhor” (1Co 5.3,5).

Morrer é descrito igualmente como a partida da alma ou do espírito: “Ao sair-lhe a alma (porque morreu), deu-lhe o nome de Benoni” (Gn 35.18); “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor e disse: Ó Senhor, meu Deus, rogo-te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele” (1Rs 17.21); “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28); “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito” (Sl 31.5); “E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27.50); “Voltou-lhe o espírito, ela imediatamente se levantou” (Lc 8.55); “Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46); “E apedrejavam Estevão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59).

Refere-se aos que já morreram como almas, algumas vezes, e como espíritos, outras vezes: [alma] Mt 10.28 (citado acima); “Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam” (Ap 6.9); “e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23); “Pois também Cristo morreu... para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé” (1Pe 3.18-20). Hoekema, Anthony (Criados à Imagem de Deus. 3ª ed. Cultura Cristã. 2018).

 

8.1.5 Essa Doutrina Leva em Consideração os Versículos de Alma e Espírito Apenas Quando Significam Um Componente Espiritual da Natureza Humana, e Não Expressões Como Vida e Pessoa, Definidos Pelo Contexto

Teólogos como Anthony Hoekema (2018), em seu livro “Criados à Imagem de Deus”, filosofaram sobre os termos corpo, alma, coração e espírito, e chegaram à conclusão de que cada um desses termos, olhando a Bíblia toda, significam todo o ser humano. Considero a antropologia defendida por Hoekema uma teoria bem desenvolvida, mas devo discordar:

Jesus disse em Mateus 10.28 “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo”, e ele com certeza estava querendo dizer que o homem é composto de um corpo material e uma alma imaterial. A expressão “matam o corpo e não podem matar a alma” quer dizer que a alma é imaterial, espiritual e volta a Deus que a deu. Se a Bíblia é inspirada a nível verbal, ou seja, se o Espírito Santo inspirou a Bíblia até nas suas palavras, isso quer dizer que temos que ser sinceros conosco, e crer que o homem possui uma alma imaterial, que se relaciona com Deus, e que volta a Deus que o deu (Ec 12.7):

Eclesiastes 12:7 E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.

Neste verso, creio também que o Espírito Santo deu luz a Salomão, e inspirou-o para escrever a verdade: que o ser humano é composto de corpo (pó) e espírito (alma imaterial).

“Jesus e Salomão eram judeus, e com isso poderiam estar citando corpo e alma baseados somente na cultura judaica”. Não creio, pois creio que a Bíblia é a Palavra de Deus inspirada pelo Espírito, e creio que se não fosse verdade que o homem possui corpo e alma Jesus não declararia abertamente acerca dessas verdades da natureza humana com essas palavras. Se Jesus disse isso, ainda que baseado na cultura judaica dicotomista, simplesmente Jesus confirmou que essa cultura em sua antropologia afirma um fato verdadeiro acerca do homem.

Mas, para esclarecimento, obviamente, quando digo que o homem possui uma alma imaterial, estou me referindo àqueles versos que falam de alma como alma ou espírito imaterial à parte do corpo, e não quando os versos que usam os termos alma e espírito querem dizer, pelo contexto, pessoa, vida etc. Nestes versos que a alma e o espírito significam pessoa, vida etc., querem dizer apenas isso, e não alma imortal imaterial que se relaciona com Deus.

O que quero dizer com isso é que não dá para se fazer uma doutrina fidedigna com todos os versículos da Bíblia que falam de alma, corpo e espírito, pois os autores bíblicos usaram alma e espírito não só como a parte imaterial do ser humano, mas como sinônimos de outras palavras (com outros significados). Por exemplo, há quem diga a expressão “ganhar almas para Deus”. Nesta expressão quem diz isso não quer dizer apenas salvar almas e não corpos, mas salvar pessoas. Não quer dizer também necessariamente que não darão o apoio e sustento financeiro e material necessários, como cestas básicas e afins, mas apenas salvação, pois seria pecado alguém com condição deixar de fazer o bem. É apenas uma expressão, baseada na Bíblia, em inúmeros lugares, que usa a palavra “almas” como sinônimo de pessoas ou vidas.

Mas, sim, é possível, como demonstro nesse livro, escrever uma doutrina baseada na Bíblia inteira, baseada em todos os versos que alma e espírito são usados como a natureza espiritual do ser humano, que se relaciona com Deus.

 

8.1.6 O Termo Bíblico “Coração”

Como a Bíblia usa muito o termo coração, vale a pena abordarmos o tema.

Provérbios 27.19 “Como na água o rosto corresponde ao rosto, assim o coração do homem ao homem.”

“Coração” na Bíblia é um termo que traduz os pensamentos e sentimentos mais profundos e íntimos da pessoa (Grudem, 1999, p. 401).

Coração, na Bíblia, está bem mais ligado à mente e ao sentimento, do que ao próprio órgão coração.

De acordo com Hoekema (2018),

o termo coração é empregado no Antigo Testamento não só para descrever a sede do pensamento, do sentimento e da vontade; é também a sede do pecado (Gn 6.5; Sl 95.8,10; Jr 17.9), a sede da renovação espiritual (Dt 30.6; Sl 51.10; Jr 31.33; Ez 36.26), e a sede da fé (Sl 28.7; 112.7; Pv 3.5).

No novo testamento, kardia, o termo bíblico para coração, indica a sede da vida física, espiritual e mental. Ele é também descrito como o centro e a fonte de toda a vida interior do homem, com seu pensamento, sentimento e volição. O coração também é descrito como o lugar da habitação do Espírito Santo.

Kardia é, acima de tudo, o centro, no homem, ao qual Deus se dirige, no qual a vida religiosa está arraigada e que determina a conduta moral (“Kardia”, TDNT, 3, p. 611,612 apud Hoekema, 2018).

O termo coração é muito importante na Bíblia, é o centro do homem. Porém, como os autores acima mostram, é o centro, e não o todo do homem. O homem como um inteiro (o todo do homem) é a união entre alma e corpo, mas o centro desse homem se dá no termo bíblico chamado coração. Por isso Jesus disse que o homem bom tira boas coisas do seu coração e o homem mau tira más coisas do seu mau coração. E do que está cheio o coração fala a boca.

Portanto, se uma pessoa quiser se identificar com algo, ela se identificará com o seu coração, pois “o coração do homem corresponde ao homem” (Pv 27.19), mas se uma pessoa quiser saber a sua natureza humana na integra, se identificará como uma unidade de corpo e alma. E, claro, o coração está dentro dessa unidade, sendo o seu centro.

Como disse Bavinck (Dogmática Reformada, Editora Cultura Cristã, 2012), o pecado não é material, nem uma substância, mas uma qualidade moral, culpa moral e corrupção moral, mas como disse Hoekema (2018), tanto o pecado e a fé estão no coração, que é o centro do homem, e este é constituído de corpo e alma.

 

8.1.7 O Homem é uma Unidade: Aplicações Práticas

Citando Hoekema (2018), com os mesmos argumentos da sua antropologia (ele a chama de unidade psicossomática), aplico esses argumentos para a dicotomia de Grudem, dizendo que o homem é muito mais do que corpo e alma, mas uma unidade disso em que corpo e alma são um!

Quando as coisas não vão bem com ele [o homem], pode precisar de uma cirurgia, em alguns casos, ou se aconselhamento, em outros. O homem é uma pessoa que pode, contudo, ser vista por dois aspectos [físico e o não físico].

Apesar de ter escrito aquela teoria alma-mente-cérebro na seção Corpo, Alma, Mente e Cérebro, o ideal é enxergar o homem como uma Unidade:

Nós não precisamos imaginar a mente e o cérebro como duas espécies de substâncias interativas. Não precisamos conceber os eventos mentais e os eventos cerebrais como dois conjuntos distintos de eventos... Parece-me suficiente, em vez disso, descrever os eventos mentais e seus eventos cerebrais correlatos como os aspectos interiores e exteriores de uma única sequência de eventos, que em sua plena natureza são os mais ricos – há mais neles – do que pode ser expresso em uma só categoria, mental ou física.

Nós estamos considerando ambos [minha experiência consciente e o funcionamento de meu cérebro] como dois aspectos igualmente reais de uma só unidade misteriosa. O observador externo vê um aspecto, o de um padrão físico de atividade cerebral. O próprio agente conhece um outro aspecto, o de sua experiência consciente... O que estamos dizendo é que esses aspectos são complementares. Donald M. MacKay, Brains, Machines and Persons (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), p. 14 apud Hoekema (2018, p. 239-240).

 

8.1.8 Conclusão

Procurei expor essa doutrina, de simples entendimento, de que o homem é um ser único e unificado, onde nesta unidade existem duas partes, uma parte imaterial, a alma ou espírito, e uma parte material, o corpo humano. Essas duas partes do homem, na prática, se comportam como dois aspectos do homem, um físico e um não físico, um exterior e um interior, pois o homem é uma unidade nesta vida, e a Bíblia enfatiza o homem pleno e completo quando é composto de corpo e alma, seja nesta terra, seja no estado glorificado depois da sua ressurreição.

A Escritura é claramente e majoritariamente dicotomista. Isso pode ser visto mesmo quando o leitor não aplica as regras de interpretação da hermenêutica bíblica em sua leitura da Palavra. A cultura judaica, sob a qual veio Jesus, é dicotomista. E, com o auxílio das regras de interpretação, elucidamos as duas contradições acerca de alma e espírito no Novo Testamento.

A tricotomia, embora uma teoria muito bonita quando eventualmente comparada com a psicologia freudiana, não encaixa com a maior parte da Escritura, com seus argumentos falhando ao serem comparados com vários versículos de diversos livros da Bíblia.

Espero que essa doutrina, a dicotomia como exposta, aliada à ênfase da Escritura sobre o homem como uma unidade, seja realmente de alívio para as pessoas no sentido de dar uma teoria mais fiel segundo o crivo da Palavra inspirada em comparação com as diversas teorias que existem na antropologia bíblica, e na teologia em geral.

 

8.2 Origem da Alma

A respeito da origem da alma, existem duas teorias principais defendidas pela Igreja, o traducionismo (ou traducianismo) e criacionismo (da alma). O criacionismo afirma que Deus cria a alma ou espírito no momento da concepção. A teoria traducianista ou traducionista sustenta que a alma e o corpo da criança são herdados dos pais no momento da concepção (Grudem, 1999).

O traducionismo possui algumas dificuldades em afirmar que a alma da criança é herdada dos pais, através da semente do homem ou da mulher. Por exemplo, Bavinck (2012, Dogmática Reformada) enumera algumas dificuldades da teoria traducianista:

O traducianismo não explica a origem da alma nem a transmissão hereditária do pecado. A respeito da primeira dificuldade [origem da alma], há duas possibilidades: a primeira é acabar com a teoria de que a alma do filho já existia nos pais e em seus ancestrais - portanto, um tipo de crença na preexistência da alma - ou de que a alma estava potencialmente presente na semente do homem ou da mulher ou em ambas (i.e., aproxima-se de uma posição materialista). A segunda possibilidade é que os próprios pais, de algum modo, a produzem (i.e., aproxima-se de uma posição criacionista), com o agente humano no lugar de Deus. Com relação à segunda dificuldade [transmissão do pecado], o traducianismo não pode ajudar a resolvê-la, porque o pecado não é material, nem uma substância, mas uma qualidade moral, culpa moral e corrupção moral.

[Ainda], dificilmente se pode imaginar que em cada um dos dois componentes, o óvulo e o esperma, haja uma alma “espiritual imortal”, pois, nesse caso, as almas seriam preexistentes (cf. Sabedoria 8.19,20; 2Esdras 8.4ss.), todo ser humano possuiria incontáveis almas e toda vez que o esperma e o óvulo se decompusessem, uma alma seria perdida.

Se respondermos que Deus deu ao esperma e ao óvulo a capacidade de, ao serem unidos, produzirem uma alma que nenhum deles tinha antes da união, mas que ela ainda é espiritual e imortal, então realmente estamos tratando de outra forma de criacionismo.

Quando o traducianismo procura sua própria lógica, ou ele cai no materialismo ou novamente coloca o criacionismo em sua tenda com outro nome.

Pois se — como foi afirmado — ele não adotar novamente o criacionismo com outro nome, ele pode equipar o esperma e o óvulo, juntamente, ou o feto, sozinho, com um poder criativo, e, assim, cair em uma teoria evolucionária de que a vida animal pode, gradualmente e por si mesma, desenvolver-se em uma vida humana. No entanto, a teoria evolutiva, aqui e em muitos outros lugares, é totalmente incapaz desse fenômeno.

Bavinck (2012).

Acerca do criacionismo da alma:

O criacionismo tem seu fundamento na criação da alma de Adão (Gn 2.7); de muitos textos, como Ec 12.7 (E o pó volte à terra, como o era, e o espírito [alma] volte a Deus, que o deu), Zc 12.1 (PESO da palavra do Senhor sobre Israel: Fala o Senhor, o que estende o céu, e que funda a terra, e que forma o espírito do homem dentro dele); e, especialmente Hb 12.9 (Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?) conforme Nm 16.22 (Mas eles se prostraram sobre os seus rostos, e disseram: Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e indignar-te-ás tu contra toda esta congregação?). Isso não quer dizer que não tenha algumas implicações. Tanto o pecado [de Adão] quanto a justiça [de Cristo, que tomou o lugar de Adão como cabeça] pressupõem uma relação federal entre a humanidade como um todo e seus cabeças. O criacionismo afirma que cada pessoa é um membro orgânico da humanidade como um todo e, ao mesmo tempo, nesse todo, ocupa um lugar independente, preservando a unidade orgânica (física e moral) da humanidade, além de respeitar o mistério da personalidade individual. Deste modo, os seres humanos não são espécies [como animais], nem são indivíduos isolados como os anjos, mas são parte de um todo e também são indivíduos: pedras vivas do templo de Deus (1Pe 2.5). Bavinck, Herman, Dogmática Reformada, 2012.

Ainda temos outros versos, como João 3.6 “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”. Carne gera carne (corpo). Deus (que é Espírito) gera o nosso espírito, ou alma. Conforme Jesus, o nosso corpo material não pode gerar uma alma espiritual. Se pensarmos que a alma dos pais produz a alma dos filhos, discordamos com os textos acima (Ec 12.7, Hb 12.9, Nm 16.22, Zc 12.1), e até com João 3.6, que fala sobre a regeneração, mas pode ser visto como uma lei geral de Deus para todas as gerações de ‘carne para carne’ e ‘Espírito para espírito’, neste caso, para a criação da alma: o que é nascido do Espírito [letra maiúscula] é espírito, ou seja, é o Espírito Santo [Deus] que cria o nosso espírito-alma dentro de nós, e não a alma dos nossos pais [o que seria espírito com letra minúscula] que cria outras almas. Se estivesse escrito: o que nasce do ‘espírito é espírito’, daria a entender que o espírito pode se multiplicar à parte da criação de Deus, como a alma dos pais nos filhos (traducionismo), mas está escrito que o Espírito Santo gera o espírito do homem, que é a sua alma, e isto não só na regeneração (novo nascimento), mas na criação de cada ser humano, na concepção.

Assim, como creio que Deus é quem dá a vida, e como também Eliú defende que veio de Deus, como Adão, simbolicamente, Jó 33.6 "Eis que vim de Deus, como tu; do barro também eu fui formado", creio que a alma ou espírito de cada ser humano veio de uma criação especial de Deus na concepção, concordando com Bavinck, e discordando da teoria traducionista.

Acerca da transmissão do pecado, discuto isso nas seções 4.3 Cristo Nasceu sem Pecado e 9.4 A Culpa e Corrupção Herdadas pela Queda, a Aliança das Obras feita no Éden e a Relação de Adão com a Humanidade.

 

8.3 O Homem e a Mulher como Imagem de Deus

A Bíblia fala que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26).

Os pais da igreja acreditavam em um sentido para esses termos. Lutero, outro sentido. Calvino, outro sentido. E isso ocorre até os dias de hoje: ninguém realmente sabe o que significa a imagem e semelhança de Deus no homem de modo preciso. Stanley Grenz tinha ainda outro significado para imagem e semelhança.

Não cabe fazer uma retrospectiva histórica aqui. Fico com Grudem (1999) mais uma vez, pois nisso também ele fica apenas com o que a Escritura diz:

Podemos usar a seguinte definição: o fato de ser o homem à imagem de Deus significa que ele é semelhante a Deus e o representa. [...]. Os teólogos gastaram muito tempo tentando especificar uma característica do homem, ou bem poucas delas, em que se vê primordialmente a imagem de Deus. Alguns já cogitaram que a imagem de Deus consiste na capacidade intelectual do homem, outros no seu poder de tomar decisões morais e fazer escolhas voluntárias. Outros conceberam que a imagem de Deus era uma referência à pureza moral original do homem, ou ao fato de termos sido criados homem e mulher (Gn 1.27), ou ao domínio humano sobre a Terra. [...] As palavras hebraicas que exprimem “imagem” e “semelhança” simplesmente informavam aos primeiros leitores que o homem era semelhante a Deus, e em muitos aspectos representava Deus [...].

Para os primeiros leitores, Gênesis 1.26, “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, significava simplesmente: “Façamos o homem como nós, para que nos represente”. Como “imagem” e “semelhança” já carregavam esses significados, as Escrituras não precisam dizer algo como: O fato de ser o homem à imagem de Deus significa que o homem é como Deus nos seguintes aspectos: capacidade intelectual, pureza moral, natureza espiritual, domínio sobre a Terra, criatividade, capacidade de tomar decisões éticas e imortalidade [ou alguma declaração equivalente]. Tal explicação é desnecessária, não só porque os termos tinham significados claros, mas também porque nenhuma lista desse tipo faria justiça ao tema. Grudem (2010).

Deste modo, como exposto, o homem e a mulher são como Deus, e representam Deus.

O corpo unido à alma de cada ser humano também é imagem de Deus, justamente porque Gênesis 1.27 NVT, que diz “Assim, Deus criou os seres humanos à sua própria imagem, à imagem de Deus os criou; homem e mulher os criou.”, pressupõe que ser homem e ser mulher (que são diferentes pela mente e corpo, e não pela alma/espírito, nem pela moral) também faz parte da imagem de Deus, ou seja, ser imagem e semelhança de Deus não é só sobre a parte moral e espiritual, mas também é algo que engloba o corpo de cada ser humano (criado para glorificar a Deus), embora, claro, Deus, a fonte da imagem e semelhança, é Espírito. Jesus, a própria Imago Dei, o próprio resplendor da glória de Deus (Hb 1), assumiu a humanidade, sendo verdadeiro homem e Deus, mostrando que ainda que Deus seja Espírito em sua natureza divina, baseado na encarnação do Verbo, e baseado em Gn 1.27 (que liga a imagem de Deus com ser homem e mulher), o corpo unido à alma também é imagem e semelhança de Deus, e deve ser usado para a glória e louvor de Deus Trino e Uno.

 

Estágios da Imagem de Deus

1. Imagem original. Adão e Eva foram criados retos e puros. Possuíam a imortalidade, possuíam a pureza, justiça e retidão originais, eram uma verdadeira imagem de Deus.

2. Imagem desfigurada. Quando Adão e Eva pecaram, eles e toda a humanidade futura – seus descendentes – ainda permaneceram como imagem de Deus, mas uma imagem distorcida pelo pecado e pela queda – todos os que nascem, nascem mortos espirituais, sem a justiça original com a qual Adão e Eva foram criados.

3. Imagem renovada. Quando uma pessoa é salva (seja no Novo Testamento ou no Antigo) ela tem essa imagem restaurada ou renovada: ela é justificada pela fé, e gradualmente, conforme a pessoa é santificada por Deus, a pessoa fica cada vez mais parecida com Cristo, sua imagem fica cada vez mais parecida com à de Cristo. A plenitude da imagem de Deus não é alcançada nesta Terra, mesmo por um salvo: Cristo é perfeito e nós não somos, portanto nunca seremos a completa imagem de Deus nesta Terra.

4. Imagem aperfeiçoada. A imagem de Deus plena, ligada ao corpo glorificado, conforme a imagem de Deus em Cristo Jesus (seremos como ele), só será alcançada na glória dos céus, na glorificação, na vida eterna, a qual será uma medida melhor e mais excelente do que a imagem original do Éden, tanto quanto os novos céus e terra serão mais excelentes do que o Éden.


Roberto Fiedler Rossi

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